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03/04/2026

O PEIXE NA CULTURA AFRO-BRASILEIRA: ENTRE O SAGRADO E A VIDA Por Sérgio Melo

Jornalista Lucélia Muniz

Ubuntu Notícias, 03 de abril de 2026

@luceliamuniz_09     @ubuntunoticias    @sergioo.melo

Minha família materna tem uma relação muito forte com peixe. Essa relação se estende aos espíritos cultuados em nossa macumba. Sempre que nossos parentes vinham nos visitar, tinha peixe no almoço. Da mesma forma, as oferendas aos mortos, alguns recebiam peixe, como a Preta Velha da minha mãe, Vovó Maria Redonda da Bahia e meu preto velho, Pai Joaquim também.

Quando a gente fala do peixe dentro da cultura afro-brasileira, não estamos falando só de alimento. Estamos falando de história, de ancestralidade e de uma conexão profunda com as águas, que são fonte de vida, de força e de espiritualidade. O peixe é um alimento sagrado. Ele está presente nas comidas de santo e também nas oferendas, sempre com um sentido de respeito, de entrega e de conexão com o sagrado, sendo uma relação vem de muito tempo das tradições africanas, que trouxeram consigo uma forma de enxergar o mundo onde tudo está conectado: natureza, espiritualidade e vida cotidiana e aqui se mesclaram com os povos originários na mesma sintonia. O peixe carrega o significado de movimento, de continuidade, de fertilidade e multiplicidade. Ele vive nas águas, e nas religiões de matriz africana, as águas da Kalunga são moradas de força, de energia, e principalmente dos Ancestrais, como um grande portal.

O peixe, além da relação espiritual, também está no nosso dia a dia, principalmente na culinária. A comida afro-brasileira carrega muita história — e o peixe tem um papel importante nisso. E é fundamental reconhecer o papel das populações ribeirinhas e dos pescadores, que sempre tiveram uma relação direta com as águas, há gerações, vivendo da pesca, garantindo o sustento de suas famílias, preservando uma forma de vida baseada no equilíbrio, no respeito e na conexão com o ambiente. A pesca é trabalho, é cultura, é identidade e é continuidade de saberes ancestrais.

Simbolicamente, o peixe ensina sobre saber se mover, saber se adaptar, saber fluir, mesmo quando a correnteza muda. Cabendo a reflexão: estamos fluindo com a vida ou nadando contra ela todo momento?

Sergio Melo
Babá de Umbanda | Psicólogo e Educador Social

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