Jornalista
Lucélia Muniz
Ubuntu
Notícias, 21 de junho de 2026
@luceliamuniz_09 @ubuntunoticias @nicolauneto_
Não há possibilidade de construir uma educação antirracista sem a
participação ativa de estudantes. Foi essa uma das bases da prática pedagógica
afrocentrada Ensinafro, idealizada pelo professor Nicolau Neto, da EEMTI Padre
Luís Filgueiras de Nova Olinda-CE. A referida prática pedagógica é desenvolvida
nas aulas de História (1º ao 3º ano) e de Sociologia (3º ano) e Filosofia (1º e
2º ano).
O
ENSINAFRO
O ENSINAFRO dentro da EEMTI Padre Luís Filgueiras, única escola de
ensino médio em tempo integral em Nova Olinda, no cariri cearense, nasceu em
2023 e consiste em trabalhar os conteúdos de História, Filosofia e Sociologia
tendo como eixo central a perspectiva africana.
Não se trata de abandonar as temáticas que já aparecem no livro,
mas problematizá-la. Afinal, o currículo ainda é pautado pelo viés eurocêntrico.
É, pois, questionar, por exemplo, porque nos livros de História destinados ao
1º ano não aparece civilizações africanas antigas como Cartago e os reinos
núbios entre 980 a.C ao século VIII d.C, com destaque para o Reino de Cuxe e o
Reino de Axum. Ambos importantíssimos no desenvolvimento da agricultura, do
comércio, da metalurgia e da criação da escrita (a meroítica). Cuxe, inclusive
chegou a dominar outra importante civilização africana, o Egito, dando início a
25ª Dinastia dos Faraós Negros.
Por falar em Egito, ainda há o mito de que essa civilização não
era africana dada a sua grande importância em diversas áreas, como a medicina,
a tecnologia, arquitetura, o desenvolvimento do calendário solar, a escrita e
berço de muitas disciplinas que temos nas escolas, como a matemática e a
filosofia, por exemplo.
No segundo ano, o grande debate ocorre quando se introduz a
História do Brasil, que não era Brasil. Esse não foi o nome dados pelos
diversos povos originários que já ocupavam essa grande terra. Foi preciso
alimentar as discussões em torno da ideia de que já existiam povos organizados
nessa grande extensão de terra que eles chamavam de Pindorama, termo que na
língua tupi significa "Terra das Palmeiras". O povo nativo não nasceu
escravizado; foi transformado em escravizado pelos colonizadores portugueses e
lutaram o tempo todo para não ser.
Foi preciso, de igual modo, fazer um percurso que os livros não
fazem. Ir ao continente africano (que hoje é formado por mais de 50 países) e
destacar que em períodos de grandes transformações históricas que ocorreram na
Europa (e isso os livros trazem), como por exemplo, Revolução Inglesa,
Revolução Industrial, Iluminismo e Revolução Francesa, lá se desenvolveu um dos
maiores reinos, o Reino do Congo (do século XIV e XIX) e que desenvolveu uma
moeda local, além de grandes construções usando pedra e planejamento de
cidades; Foi mencionado ainda o Reino do Ndongo, que se desenvolveu ao sul do
Reino do Congo e, de onde saiu as grandes resistências ao domínio e os
traficantes portugueses na região, tendo na rainha Nzinga Mbandi Ngola
Kiluanji, ou simplesmente Rainha Nzinga.
Nos terceiros anos, foi preciso discutir que o país que nasceu com
a "emancipação política" não acabou com a escravidão; e quando essa
abolição veio no formato de lei (ocorrendo porque o território não tinha mais
condições de mantê-la, pois o mundo vivia sob as bases do trabalho livre e por
isso foi pressionado, sobretudo pelos ingleses que queria vender seus produtos)
não foi acompanhada de uma política de reparação por mais de 300 anos de
escravidão. Não foi feita a reforma agrária.
Aliás, aos negros foram negados acesso à terra; a eles e elas
foram negados acesso à educação e proibidos de exercerem suas manifestações
culturais. De igual modo foi levado para estudo e debate o fato de que o país
que conhecemos hoje não teve a contribuição de negros e negras, mas foi
construído por eles. Nomes como Zumbi, Dandara, Luiza Mahin, Luiz Gama, Tereza
de Benguela, Tia Simoa, Cruz e Souza, Machado de Assis, Lima Barreto, Mestre
Bimba, Mestre Pastinha, Oliveira Silveira, Clóvis Moura, Abdias do Nascimento,
Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, além de destacar coletivos como a Frente
Negra Brasileira, a Imprensa Negra e o Movimento Negro Unificado ramificado em
vários estados, inclusive no Ceará.
O
protagonismo estudantil
Foi nesse contexto que os estudantes iam se posicionando em sala,
ao ponto de perceberem que essa prática pedagógica afrocentrada tinha como
finalidade conhecer a história silenciada e apagada dos livros. Uma ação
educativa, sobretudo, que valoriza a história e a cultura africana e
afrobrasileira. Uma prática que não só questiona o currículo, mas o transforma
por meio do processo de ensino-aprendizagem diário e antirracista.
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| Foto - Nicolau Neto |
Uma das consequências dessas vivências afrocentradas foi a mesa de
diálogo construída somente por estudantes no Novembro Negro 2025 da EEMTI Padre
Luís Filgueiras. Cícera Jamilly, Daniel Melo, Maria Edilaine e Vitor Feitosa,
todos do 3º ano E, em uma troca permanente de saberes, discutiram para toda a
comunidade escolar o tema “Educação Antirracista – um dever fazer coletivo” e
defenderam veementemente a necessidade urgente do cumprimento das leis
10.639/2003 e 11.645/2008 em todas as áreas do conhecimento.
Para tanto, afirmaram que o caminho mais acertado e talvez o único
seja o do letramento racial e citaram o livro trabalhado em sala de aula pelo
professor Nicolau Neto, o “Pacto da Branquitude”, da psicóloga Cida Bento.
Nele, Cida afirma que há, no Brasil, entre pessoas brancas um pactos narcísico
da branquitude que, na verdade, é uma cumplicidade não verbalizada entre essas
pessoas para manterem seus privilégios e isso se mantêm ao longo da História.
“Esse pacto estruturou toda a nossa sociedade que passa a se
espelhar no padrão não negro, disseram os estudantes.” Para elas/es, somente o
letramento racial nas escolas é capaz de modificar isso. “Somente o letramento
racial pode construir uma escola que destrua o racismo e isso passa por novas
práticas pedagógicas em todas áreas de conhecimento”, destacaram.
Parceria
com o projeto de extensão da URCA "Leia Mulheres Negras"
"Romper com uma educação historicamente eurocentrada,
masculina e branca para abrir caminhos a uma formação inclusiva, multicultural
e libertadora. Esse é o cerne do projeto de extensão “Leia Mulheres Negras: Por
uma educação inclusiva, multicultural e libertadora”, desenvolvido pela
Universidade Regional do Cariri (URCA). Com atividades contínuas desde julho do
ano passado, a iniciativa vem consolidando a ponte entre o conhecimento
acadêmico e o chão da escola pública na região do Cariri cearense",
destaca matéria veiculada no site da URCA.
Segundo a coordenadora do projeto, a professora Itamara Menezes,
do departamento de Ciências Sociais, nas escolas parceiras foram entregues um
acervo expressivo de 80 livros de autoria de mulheres negras, tanto brasileiras
quanto estrangeiras. A chegada dessas obras representa acesso, identificação,
memória e a oportunidade de jovens leitores encontrarem novas narrativas e
visões de mundo, fazendo parte da ação "biblioteca dos sonhos."
"Além das frentes no Crato, o 'Leia Mulheres Negras' expandiu
suas fronteiras para Nova Olinda. O projeto firmou uma cooperação estratégica
com o ENSINAFRO, uma prática pedagógica afrocentrada idealizada pelo professor
Nicolau Neto na EEMTI Padre Luís Filgueiras", frisou a URCA.
Para o decorrer de 2026, o projeto tem a perspectiva de trabalhar
com ações pontuais e estratégicas para consolidar a parceria e levar o debate a
novos espaços do Cariri. O ENSINAFRO ganha o reforço literário e epistemológico,
completou a matéria veiculada no site da URCA.