Ubuntu Notícias, 01 de março de 2026
@luceliamuniz_09 @ubuntunoticias @rodrigo_g_duarte
Por
Rodrigo Gonçalves Duarte
Cearense de Santana do Cariri-CE, é Cientista Social pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mestre em Educação e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMS. Atualmente realiza doutorado-sanduíche na Universidad de Salamanca (Espanha). É pesquisador na área de Políticas Públicas Educacionais, com artigos publicados em periódicos científicos nacionais e internacionais.
O
conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel: impactos para o mundo
As
tensões no Oriente Médio revelam disputas políticas e estratégicas que
ultrapassam fronteiras regionais e influenciam diretamente o equilíbrio
internacional.
As recentes
tensões envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel recolocaram o mundo diante de
um cenário de crescente instabilidade internacional. Embora o conflito esteja
concentrado no Oriente Médio, seus efeitos políticos, econômicos e humanitários
ultrapassam limites territoriais e demonstram como guerras contemporâneas
deixaram de ser fenômenos locais para assumir impactos globais. Mais do que um
confronto militar circunstancial, o cenário atual expressa disputas estruturais
relacionadas à reorganização do poder internacional em um contexto marcado pela
transição para uma ordem mundial cada vez mais multipolar.
A escalada
recente não pode ser compreendida apenas como resultado de rivalidades
imediatas. Conforme argumenta Immanuel Wallerstein (2004), o sistema-mundo
capitalista organiza-se por meio de relações hierárquicas entre centros de
poder e regiões que buscam ampliar autonomia política e econômica. Nesse
sentido, conflitos armados emergem frequentemente quando Estados considerados
periféricos ou semiperiféricos passam a desafiar zonas tradicionais de
influência das grandes potências.
O Irã representa
precisamente esse movimento histórico. Após a Revolução Islâmica de 1979, o
país rompeu com a influência direta dos Estados Unidos e iniciou um processo de
fortalecimento político, militar e tecnológico orientado pela soberania
nacional. Ao longo das últimas décadas, ampliou sua presença regional,
consolidou alianças estratégicas e investiu em capacidades energéticas que o
transformaram em potência regional capaz de tensionar o equilíbrio geopolítico
do Oriente Médio.
Esse
reposicionamento desafia diretamente interesses norte-americanos. A presença
dos Estados Unidos na região sempre esteve associada não apenas à segurança
internacional, mas também à proteção de rotas comerciais e ao controle indireto
sobre fluxos energéticos globais. Como observa Chomsky (2003), o apoio
histórico a Israel integra uma estratégia mais ampla de manutenção da
influência política e militar em áreas consideradas vitais para a estabilidade
econômica internacional. Joseph Nye (2011) acrescenta que o poder global
contemporâneo depende simultaneamente da capacidade militar e da preservação da
credibilidade política perante aliados e adversários, elemento central para
compreender o envolvimento direto norte-americano no conflito.
Israel, por sua
vez, interpreta o fortalecimento iraniano como ameaça estratégica de longo
prazo. A possibilidade de um Irã com maior capacidade militar e influência
regional altera o equilíbrio de poder e reduz a superioridade estratégica
israelense. Segundo Mearsheimer (2018), o sistema internacional tende a
produzir dilemas de segurança nos quais medidas defensivas adotadas por um
Estado são percebidas como ofensivas por outro, alimentando ciclos contínuos de
tensão e militarização.
Sob a perspectiva
da economia política internacional, as tensões atuais também devem ser
compreendidas à luz das transformações do capitalismo contemporâneo. David
Harvey (2005) argumenta que disputas territoriais e intervenções militares
frequentemente acompanham processos de reorganização da acumulação capitalista,
especialmente em regiões estratégicas para o controle energético e logístico
global. Nesse sentido, conflitos no Oriente Médio não envolvem apenas segurança
nacional, mas disputas por recursos, mercados e influência econômica capazes de
redefinir fluxos globais de poder.
Os acontecimentos
recentes aprofundaram esse cenário. Reportagens da CNN Brasil indicam que
ataques coordenados entre Estados Unidos e Israel atingiram instalações estratégicas
iranianas e resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã
desde 1989. A operação foi apresentada pelas autoridades norte-americanas como
ação preventiva destinada a conter ameaças consideradas iminentes,
especialmente relacionadas ao avanço do programa nuclear iraniano e ao
desenvolvimento de mísseis balísticos capazes de atingir aliados ocidentais
(CNN Brasil, 2026).
A resposta
iraniana ocorreu rapidamente, com ataques direcionados a regiões que abrigam
bases militares norte-americanas no Oriente Médio, ampliando o risco de
regionalização do conflito. Analistas internacionais destacam que crises dessa
natureza possuem elevado potencial de contágio geopolítico, sobretudo em um
momento de fragmentação da governança global e enfraquecimento de mecanismos
multilaterais de mediação (Ikenberry, 2020).
A reação
internacional evidencia leituras distintas do conflito. Países europeus
demonstraram preocupação com impactos sobre segurança energética, inflação e
estabilidade política regional, enquanto organismos multilaterais alertaram
para riscos humanitários e econômicos globais. O governo brasileiro, por meio
do Ministério das Relações Exteriores, condenou os ataques e reafirmou a
centralidade da diplomacia e do multilateralismo, posicionamento historicamente
associado à política externa brasileira voltada à solução pacífica de
controvérsias.
Os efeitos dessas tensões já se manifestam em escala global. A instabilidade no Golfo Pérsico pressiona mercados energéticos, eleva custos logísticos e amplia incertezas econômicas internacionais. Em sociedades marcadas pela insegurança permanente, como analisa Bauman (2007), ameaças globais passam a justificar respostas políticas baseadas na antecipação do risco e na militarização crescente das relações internacionais. Ao mesmo tempo, como alertava Said (1990), a forma como esses conflitos são narrados internacionalmente tende a simplificar disputas complexas, obscurecendo interesses geopolíticos e econômicos mais amplos.
Opinião
do autor
Na minha concepção,
o conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel evidencia não apenas uma disputa
regional, mas os limites de uma ordem internacional ainda profundamente
orientada pela lógica da força como instrumento de regulação política. A morte
do principal líder iraniano simboliza o aprofundamento de uma dinâmica em que
ações militares preventivas passam a substituir progressivamente mecanismos
diplomáticos de resolução de conflitos.
O discurso da
segurança nacional, frequentemente utilizado para legitimar intervenções
armadas, revela uma contradição central das relações internacionais
contemporâneas: em nome da estabilidade, produzem-se novas instabilidades. A
atuação dos Estados Unidos nesse cenário demonstra a tentativa de preservar
liderança global em um momento de transição do poder internacional, marcado
pela ascensão de novos atores regionais e pelo enfraquecimento relativo da
ordem unipolar estabelecida após o fim da Guerra Fria.
Israel, inserido
em um ambiente regional historicamente instável, busca garantir sua segurança
diante do fortalecimento iraniano. Contudo, a lógica da contenção permanente
tende a alimentar ciclos sucessivos de retaliação, ampliando inseguranças
coletivas. O chamado dilema de segurança internacional demonstra que quanto mais
Estados buscam proteção por meio da força, maior tende a ser a percepção global
de ameaça.
Os impactos desse
conflito atingem de maneira significativa países distantes do epicentro da
guerra. Economias como a brasileira experimentam efeitos indiretos por meio da
volatilidade energética, pressões inflacionárias e instabilidade econômica
global. Decisões tomadas por grandes potências acabam repercutindo diretamente
na vida cotidiana de populações que não participam das decisões estratégicas
que originam os conflitos.
O cenário atual
também expõe o enfraquecimento das instituições multilaterais criadas para
prevenir guerras de grande escala. Quando interesses estratégicos das potências
prevalecem sobre normas internacionais, evidencia-se uma crise de governança
global que coloca em risco a própria capacidade coletiva de mediação de
conflitos.
Defender o diálogo diplomático e o fortalecimento do multilateralismo não significa neutralidade política, mas reconhecimento de que, em um mundo interdependente, guerras regionais rapidamente se tornam crises globais. A paz, nesse contexto, deixa de ser apenas um ideal normativo e passa a constituir condição essencial para a estabilidade internacional e para o futuro comum das sociedades contemporâneas.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Z. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Ataques dos Estados Unidos e de
Israel ao Irã. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/ataques-dos-estados-unidos-e-de-israel-ao-ira.
Acesso em: 1 mar. 2026.
CHOMSKY, N. Hegemony or Survival. New
York: Metropolitan Books, 2003.
CNN BRASIL. Saiba os motivos que levaram os EUA e Israel a atacar o Irã. 2026.
Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/saiba-os-motivos-que-levaram-os-eua-e-israel-a-atacar-o-ira/.
Acesso em: 1 mar. 2026.
HARVEY, D. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2005.
IKENBERRY, G. J. A World Safe for Democracy. Yale
University Press, 2020.
MEARSHEIMER, J. J. The Great Delusion. Yale University
Press, 2018.
NYE, J. S. The Future of Power. PublicAffairs, 2011.
SAID, E. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
WALLERSTEIN, I. World-Systems Analysis. Duke University Press, 2004.








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