sexta-feira, 16 de abril de 2021

Uma homenagem a tecelã Tereza

Lucélia Muniz

Ubuntu Notícias, 16 de abril de 2021

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Fotografia – Vera Luz Oliveira

Tereza foi durante muito tempo a tecelã de minha mãe, Dona Constância, que era artesã. Era do tear de Tereza que saia o tecido para as redes que mamãe bordava o ponto de cruz. Nós morávamos no Sítio Patos e Tereza no Sítio Tabuleiros aqui em Nova Olinda-CE.

A homenagem em forma de Crônica que você vai ler a seguir foi escrita pela Professora Luciana Muniz da França – Cadeira 17 da Academia de Letras do Brasil/Seccional Regional Araripe-CE, na ocasião em que Tereza nos deixou deste plano terreno para contemplar o reino de Deus.

Crônica Tereza Por Luciana Muniz da França

Era precisamente uma noite junina e deveria até passar como uma noite qualquer. Mas, estava muito frio. E, junto com aquela noite fria, o seu corpo gelava. De fato, nem mesmo o calor da fogueira de São João conseguiu mantê-la aquecida.

Com familiares em volta, soltou o seu último sopro de vida, levando consigo toda a bondade que tinha sempre a oferecer. A bondade que ficou na lembrança dos que a conhecera – o grande legado de Tereza.

Partiu silenciosa na noite fria, iluminada pela fogueira trilhou até o paraíso. E, imagino Tereza chegando aos céus precisamente como a Irene de Manuel Bandeira: “Irene boa, Irene sempre de bom humor”. São Pedro bonachão diria: “Entre!”. Com toda sua alegria, ruborizada de tanto sorrir Tereza responderia: “Aqui, estou, meu filho santo!”

A vida foi de alegria e cuidados para com as pessoas. Mesmo não tendo filhos adotava todos que a rodeava com zelo e dedicação.

Agricultora, tecelã, lavadeira e amiga. Estas quatros vertentes que desempenhou com esmero se entrelaçam em diversas outras. Foi tão virtuosa que não tem como definir apenas uma delas.

Na agricultura – rápida na lavoura. Uma boa entendedora do solo, do plantio, da limpa e da colheita. Sempre muito risonha e dedicada.

No tear, Tereza tecia com domínio e destreza, naquela dança frenética das tecelãs equilibradas nos pedais do tear. Mãos hábeis e harmônicas aos pés, não perdia o ritmo acertado do fio ou desenho e em pouco tempo apresentava um belo tecido. Colorido ou não, tecer era como uma terapia que gerava risos e mais risos.

A lavadeira corajosa e solidária que nunca rejeitou a roupa de quem quer que seja. Sempre disposta, rápida e limpa. A roupa cheirava a nuvem. Era um cheiro único, gostoso e diferente de sentir.

Sentia-se tanto no direito de cuidar das pessoas que chamava, frequentemente, de filho e filha com aquele sorriso carinhoso e sincero, cheia de fé.

E, quando Tereza foi levada para ser sepultada as pessoas abriam as portas de suas casas e olhavam com tristeza, em silencio, pedindo a Deus por ela. Talvez, Tereza sorrisse naquele momento. Estava indo para Jesus, viver na eternidade.

Junto aos demais, chorei a sombra do juazeiro e em silêncio. Com um turbilhão de lembranças, acompanhei o cortejo funeral, até a cidade, na sua última passagem por aqui.

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