terça-feira, 8 de setembro de 2020

CONTO “O CARRO DE ARAÚJO” de autoria do Jornalista Antônio Hélio da Silva

Lucélia Muniz

Ubuntu Notícias, 08 de setembro de 2020

@luceliamuniz_09 @ubuntunoticias @agenciaclick__

Por Antônio Hélio da Silva*

*Jornalista Reg. Nº 0004262/CE - MTPS

Eu já vi muitos carros velhos por aí. Mas o de Araújo era diferente de todos. Nunca vi outro igual. A frente tinha para-choque e capuz de rural. Em volta dos faróis, dois dedos de durepox. Se por acaso alguém visse o automóvel passar em alta velocidade, a impressão que ficava era ter passado uma Rural. Porém era impossível. Pois velocidade não mais se desenvolvia naquela geringonça há muitos anos, devido as intermináveis reformas que mudaram o bicho de forma.

As portas eram de jeep. A carroceria só tinha uma definição – de madeira. Uma tábua na lateral esquerda da carroceria, de tanto vibrar, substituía buzina e cirene. A distinção ficava a critério de quem suportasse ouvir. O chassi de rural ainda puxava um reboque. E só para dar mais realce de modernidade, Araújo mandou fixar dois acentos estofados, cobertos com tecido de veludo furta cor.

No geral, o reboque ficou escritinho uma charrete. Para invocar mais, Araújo mandou colocar sobre o reboque, a flandagem completa de um fusca, apoiado em seis colunas de ferro. Então se a gerigonça pegasse, Araújo andava ao mesmo tempo de rural, charrete, reboque, pick up e fusca. Com toda a misturada de carros e similares num só, somada ao ronco do motor de Pick Up, a marca do carro era simplesmente uma incógnita.

Certa vez na Oficina Ressuscita, o mecânico falou:

― Esse carro todo não tem mais jeito. Disse com tanta alegria! Não vendo a hora de ficar livre das gambiarras passadas, presentes e futuras.

Mas Araújo num improviso abriu a boca cheia de dentes furados, podres e desiguais, dizendo:

― E aquele ali? – Mate ele e bot’no meu.

O outro carro já tinha sido matado há mais de dois anos.

Ouvindo aquilo, o mecânico quase caiu numa poça d’água no pátio da oficina. E seu ajudante tapou um dos ouvidos. O outro já era surdo. O abalo do mecânico não foi somente devido o bafo de bode de Araújo. Mas também pela náusea que sentiu ao imaginar a hipótese, de mexer novamente no catatau. O pior é que Araújo pagava tudo à vista. Na lata.

Esse mesmo mecânico já tinha amputado o dedão do pé direito. Foi vitimado pelo carro de Araújo. O macaco arriou e a roda enferrujada caiu em cima. O dedo ficou dependurado num pedacinho de couro. Deu grengrena e Zé do Motor ficou um ano sem trabalhar em mecânica. Mas quase todo “santo dia”, do quarto anexo à oficina, de onde administrava dois mecânicos e um ajudante, Zé do Motor via o carro de Araújo adentrar ao pátio da sua oficina, com quatro pessoas: Araújo no giro, mais três pessoas empurrando. E Araújo não aceitava favor de ninguém. Quem tivesse a sorte de empurrar o carro dele até ao destino (quase sempre a Oficina Ressuscita), era gratificado com 1 Real, quando o bicho pegasse (Deus sabe quando).

Entre fumaça, pipoco do motor, gritraiada da meninada que acompanhava, gargalhadas espalhafatosas dele comemorando a pegada, chamava cada um na boléia, pois não podia tirar o pé. E pagava um Real. Um bêbo que ele costumava dar carona no reboque ou no meio fusca, agarrado num ferro, disse desbriado: esse é... O caarro da miinha viida! Após Araújo pagar aos empurradores e ficar devendo ainda favor, o muito obrigado com voz firme, afugentava de perto, qualquer cristão de boa vontade. Tanto pela chuvarada de cuspe, quanto pelo azidume do bafo, que dava vontade do sujeito “desistir da hora que nasceu”.

Um dia, na Oficina de Zé do Motor, Araújo tirou a camisa para ficar mais versátil na ajuda do conserto. Ao levantar o braço para pegar num ferro que sustentava o tanque de gasolina – que era um garote em cima do para brisa, uma professora que estava próximo dele, caiu. É que Araújo só tomava banho se a chuva lhe pegasse. E não sabia o preço de uma loção! A professora só retornou à vida, três dias depois, num quarto de hospital, com voz moribunda, jurando “por todos os santos do céu e da terra”, nunca mais cruzar os pneus do seu carro nem seus pés na Oficina Ressuscita.

Texto produzido em 15 de fevereiro de 2009.

Araripe-CE, 07 de setembro de 2020.

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