Jornalista
Lucélia Muniz
Ubuntu
Notícias, 15 de outubro de 2026
@luceliamuniz_09 @ubuntunoticias @damisdandara_oficial
A trajetória educacional é a base da formação humana, moldando não apenas o conhecimento técnico, mas o pensamento crítico, a cidadania e o desenvolvimento socioemocional ao longo de todas as fases da vida. Hoje em especial, data em que se comemora o Dia do(a) Professor(a), o Ubuntu Notícias, tem a honra de compartilhar a trajetória de vida e superação da Professora Damiana Santos.
E
vamos ao depoimento da nossa convidada
Meu nome é Damiana da Silva dos Santos e resido em Aratama, distrito do município de Assaré. Sou natural de Nova Olinda, Ceará. Meus pais se chamam Margarida Pereira da Silva e Luiz dos Santos Filho. Minha mãe, hoje aposentada, foi por muito tempo auxiliar de serviços gerais, e meu pai sempre foi agricultor.
Antes de residirmos em Aratama, morávamos em um sítio nas proximidades de Assaré chamado Cacimbinha. Meu avô paterno sempre morou com meus pais, pois minha avó faleceu muito cedo e nem cheguei a conhecê-la. Naquela época, meu avô sempre nos ajudou como um verdadeiro pai; não esquecerei o amor que ele tinha por nós. Com todo o sacrifício, ele ajudava minha mãe a cuidar de nós. Quando nos mudamos, eu tinha 4 anos de idade. Ainda enfrentando muitas dificuldades, meus pais, meu avô e um tio — que também morou um tempo conosco — construíram a nossa casa em Aratama.
Ao chegarmos lá, passamos ainda por mais dificuldades. Meu pai trabalhava na roça e meu avô nos ajudava, pois já era aposentado na época. Tempos depois, minha mãe conseguiu seu primeiro emprego formal como merendeira e auxiliar de serviços gerais na escola da localidade. Ela ganhava seu primeiro salário na época: 30 reais, mas era o suficiente para ela fazer milagres e nos dar o necessário.
A primeira instituição em que estudei foi a Creche Irafrânio de Oliveira, junto com meus quatro irmãos. Ainda hoje me lembro de algumas cenas e das minhas professoras daquela época. Em seguida, passei a estudar na escola onde minha mãe trabalhava, a Escola Antônio da Silva Leal, na qual estudei até terminar o 8º ano (série final do ensino fundamental na época). Depois, ingressei no ensino médio na mesma escola, mas como anexo da escola Raimundo Moacir Mota, localizada na sede de Assaré.
Terminei o Ensino Médio e, um ano depois, fiz meu primeiro vestibular para o curso de Geografia na URCA (Universidade Regional do Cariri). Na época, ainda não existiam tantas políticas públicas favoráveis à minha classe social como hoje, a exemplo das cotas raciais. Então, concorri na ampla concorrência e passei em 12º lugar. Fiquei muito feliz, mas logo surgiu outro empecilho: como iria estudar? Não tinha como pagar a passagem. Vale destacar que, na época, não havia transporte gratuito e nem bolsa universitária. Minha mãe fez de tudo para que eu não perdesse essa chance. Foi quando resolvi me mudar e morar com duas conhecidas que também faziam faculdade, para dividirmos o aluguel.
Então chegou o grande dia, do qual me lembro como se fosse hoje: peguei o ônibus da empresa Guanabara e fui... Era cerca de 19h30 da noite. Ao chegar, eu sabia que, a partir daquele momento, teria que ser forte para não desistir. Assim comecei a cursar Geografia na URCA, mas as coisas foram se tornando difíceis. Como eu iria pagar o aluguel e me alimentar?
Por um tempo, minha mãe dividia as compras que fazia em casa comigo e mandava para o Crato, mas mesmo assim não era suficiente. E as cópias das apostilas? Como eu conseguiria adquiri-las? Como compraria os livros? Foi quando consegui meu primeiro emprego como cuidadora de uma idosa, ganhando 120 reais. Com esse dinheiro, eu passava a pagar o aluguel e as minhas apostilas, conseguindo assim dar continuidade ao curso.
Depois, consegui meu segundo emprego, cuidando de duas crianças. Quando saí de lá, fui trabalhar em uma escola em um bairro bem distante de onde eu morava. Nesse meio tempo, já estava morando com minha irmã Jane, que também passou no vestibular e foi residir no Crato. Fomos trabalhar na mesma escola. Caminhávamos cerca de 5 km para conseguir pegar o transporte, que era o metrô que ia até o bairro seguinte.
Eu era professora da 3ª série do Ensino Fundamental I e ela, da 4ª série; ganhávamos 350 reais por mês. O tempo foi passando até que terminei a minha faculdade. Quando concluí, continuei no Crato e trabalhei em outra escola particular.
Mais tarde, consegui meu primeiro emprego na rede pública como professora de História do Fundamental II na mesma escola em que estudei. Assim, voltei para a minha cidade natal para trabalhar. Atuei ali por alguns anos e, tempos depois, tive a oportunidade de entrar na rede estadual: fui substituir uma professora em licença na escola profissional de Assaré, a Escola Antonia Nedina Onofre de Paiva. Lecionei como professora de História por 4 meses e, quando a licença terminou, fiquei desempregada. Em 2019, recebi o convite para trabalhar novamente na mesma instituição, mas agora como professora de Geografia. Desde então, sigo trabalhando na mesma escola.
Ao longo desse tempo, fui aperfeiçoando minha vida profissional. Fiz minha primeira especialização em Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável. Em seguida, fiz uma segunda graduação, desta vez em Pedagogia. Tempos depois, como comecei a lecionar Sociologia na escola, resolvi fazer uma nova graduação na área. Aproveitando o período da pandemia, realizei também outra especialização, em Psicopedagogia.
Todo esse processo veio acompanhado de outros episódios importantes da minha vida, pois em 2020 eu me casei e, em 2021, tive minha primeira filha, Dandara. A história dela traz uma bagagem de preconceitos e enfrentamentos contra uma sociedade racista — quem me conhece e conhece a minha história sabe o real significado desse nome.
Foi uma gravidez de risco. Algum tempo antes da Dandara, passei por um momento muito difícil ao descobrir que tinha trombofilia, e soube disso de uma forma bem dolorosa. Assim, quando engravidei dela, precisei tomar uma injeção todos os dias por conta da condição. Graças a Deus, deu tudo certo. Quando a Dandara completou dois anos, comecei a cursar o meu mestrado.
No meio desse processo, descobri que estava grávida novamente e precisei fazer uma pausa. Saltando para o dia do parto, foi algo marcante na minha vida: na hora do nascimento, meu filho Aquilys nasceu sem respirar. Naquele momento, chorando na maca e olhando os médicos tentando reanimá-lo, pedi a Deus para não levá-lo. Eu já tinha uma certeza no coração, pois no início da gravidez Deus me revelou em sonho que eu seria mãe de um menino, então eu sabia que ele ficaria comigo. Ele nasceu com um sangramento no pulmão e os médicos não tinham muita fé; ele foi entubado, mas eu mantive a fé de que tudo daria certo. E deu.
Deus ouviu as minhas orações e as da minha família, que acompanhava tudo de perto. Ainda hoje me lembro das palavras de conforto de todos que me ajudaram, como a minha família e a Tatiane do Vale. Destaco aqui que Deus operou um grande milagre na minha vida, e contarei isso para sempre. Tempos depois, retornei ao mestrado e hoje consegui concluí-lo, o que tem um significado enorme para mim, com muitas dedicatórias a todos que estiveram ao meu lado. Sempre vou comemorar minhas conquistas com vocês.
Eu ainda não consegui tudo o que almejo, mas quero que meus filhos
sigam meus exemplos, desafiem esse sistema e nunca desistam de seus sonhos. Eu
ainda tenho sonhos, então creio que este texto terá mais páginas. A mensagem
que deixo para todos que estão lendo é: "Nunca desista dos seus objetivos
e, em tudo o que for fazer, dê sempre o seu melhor".












0 comments:
Postar um comentário
Deixe seu comentário mais seu nome completo e localidade! Sua interação é muito importante!