
Lucélia Muniz
Ubuntu Notícias, 29
de abril de 2021
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Com Informações do Blog Negro Nicolau
O Blog Negro Nicolau (BNN) foi lançado em 27
de abril de 2011 originalmente alcunhado de “Altaneira Infoco” e posteriormente
“Informações em Foco” até chegar a esta denominação. São 10 anos de atuação em
defesa da promoção de uma sociedade menos desigual e menos intolerante, com
equidade racial e de gênero completados na terça-feira (27).
Para esta passagem, o professor,
ativista negro, fundador e editor do blog, Nicolau Neto, promoveu na tarde
da terça (27), uma roda de conversa via Google Meet com a equipe de
colunistas e colaboradores. Participaram do encontro virtual que começou às 15h
e se estendeu até às 18h, as colunistas Karla Alves (historiadora
e integrante do Pretas Simoa), Fátima Teles (escritora,
professora e poeta), Francilene Oliveira (historiadora, guia
de turismo e condutora de trilhas), Antônio Raimundo (servidor
público federal do poder judiciário), Valéria Rodrigues (bióloga
e agente social) e Alexandre Lucas (pedagogo e
artista/educador). Como colaboradores e parceiros, estiveram Dayze
Vidal (cientista social, professora e integrante do Pretas
Simoa), eu - Lucélia Muniz (professora e blogueira), Paulo
Henrique Maia (ativista político e comunicador da Rádio Comunitária
Altaneira FM), Nelzilane Oliveira (comunicadora popular e
representante da Associação Cristã de Base – ACB), Valéria Carvalho (ativista
negra e uma das fundadoras do GRUNEC), Ana Karolyne (ativista
negra e estudante de Jornalismo na UFCA) e Ana Tereza (feminista
e assistente social).

O encontro foi dividido em dois momentos. O
primeiro ficou sob a responsabilidade de Nicolau Neto que apresentou o
histórico do blog. No segundo momento, cada participante fez considerações
sobre sua trajetória e como ela se entrelaça com a do Blog.
Nicolau Neto
Nicolau fez uma síntese desses 10 anos do
blog. Destacou as mudanças de nome até chegar ao atual e lembrou que enquanto “Informações
em Foco” teve uma consolidação, vindo a figurar entre os portais mais acessados
da região do Cariri. Em 2017, o blog passa por mais uma mudança de nome.
Afirmou que resolveu assumir a identidade também no diário virtual ao
denomina-lo de “blog Negro Nicolau”. Ele relatou que desde o lançamento o
principal objetivo era colocar a mídia no campo do enfrentamento ao sistema de
poder que exclui, que segrega, alimenta e realimenta as práticas racistas,
machistas e homofóbicas, onde os veículos de comunicações tradicionais são
parte.
Nicolau relatou que quando promoveu a última
mudança, diversas pessoas passaram a lhe enviar mensagens o questionando por
isso. “Sempre escrevi sobre o racismo, sobre a população negra e as
constantes discriminações sofridas por ela enquanto ‘Informações em Foco’, mas
nunca tinha sido questionado. Ninguém nunca tinham me perguntado o porque deste
nome. Mas me indagaram sobre a escolha de “Negro Nicolau”, disse.
“Mas respondia a todas as mensagens. A escolha
se deu em face de poder, através desta mídia, contribuir a partir das nossas
ações de sentimento de pertencimento para que outras pessoas se sintam
representadas e empoderadas por negros como eu e possam ainda se reconhecer, se
autoafirmar como negro, como negra".
Para Nicolau, o blog uma mídia negra livre.
Foi construída com a missão de ser um espaço de comunicação de denúncia de
todos os casos de segregação racial e de propor uma narrativa distinta da
veiculada pelos polos de comunicações tradicionais, estereotipada e que não
questiona as estruturas racistas. Busca oferecer uma narrativa que destaca de
forma afirmativa o povo negro deste país. É uma mídia de denúncia - inclusive
diante desta pandemia que acentuou o racismo estrutural - de combate e de
enfrentamento ao sistema, mas também de empoderamento, de identificação e de
afirmação.
Por fim, mencionou que o blog é reconhecido
nacionalmente e está entre as mídias negras mais influentes do Brasil,
figurando ainda entre veículos, coletivos, canais e iniciativas em geral de
mídias negras que assinou um manifesto em defesa da vida da população
negra e pela reforma do sistema político no Brasil; foi um dos assinantes da
carta-repúdio a um ato racista promovido por André Lacerda contra povos
tradicionais (indígenas); Além de está incluída no e-book “Mapeamento da Mídia
Negra no Brasil”, organizado pelo Fórum Permanente pela Igualdade Racial
(Fopir) e é um dos parceiros do Congresso Internacional Artefatos da Cultura
Negra.
O blog Negro Nicolau conta com oito colunistas
e tem como parceiros o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação, Gênero e
Relações Étnico-Raciais (NEGRER) da URCA; a Associação Cristã de Base (ACB), A
Academia de Letras do Brasil/Seccional Regional Araripe-CE (ALB/Araripe); a
Rádio Comunitária Altaneira FM, o Projeto ARCA e os sites Identidade 85 e
Intelectual Orgânico.
Karla Alves
Karla começou parabenizando o blog por existir
e por resistir. Lembrou que a trajetória dessa mídia negra é semelhante a do
Grupo de Mulheres Negras Pretas Simoa, uma vez que sofreu esse mesmo processo
de estranhamento da sociedade. “As pessoas perguntavam o porquê do grupo ter
só mulheres negras”, destacou. Para ela, esse estranhamento surge porque a
sociedade é racista e sempre tratou de invisibilizar o povo preto e todas as
iniciativas vindas dele para se autoafirmar. Então, quando a gente mostra que
existimos, causa esse estranhamento.
A historiadora frisou a importância do Blog no
enfrentamento do racismo e na construção de uma narrativa que positive o povo
preto e disse que essa mídia negra é uma continuidade daquela que foi a
primeira imprensa negra brasileira, o jornal “O homem de cor”, fundado pelo
tipógrafo e escritor Francisco de Paula Brito em 1835. Ele foi o primeiro a
tratar das questões da população negra, denunciando e lutando contra a
discriminação racial. Ao destacar o papel do blog, Karla trouxe um provérbio
africano da cultura Akan. “Quando as teias de aranhas se juntam, elas podem
amarrar um leão”, disse ela ao passo que desejou vida longa ao Blog.
Fátima Teles
A escritora e poeta Fátima relatou que o blog
exerce um papel preponderante no campo da mídia, especificamente na mídia negra
e por isso mesmo não é referendado pelos poderes instituídos. “Mas se fosse
eu não tinha aceitado ser colunista”, disse. Para ela, esse caminho que foi
escolhido e que está sendo trilhado é o que permite ser hoje uma referência
nacional.
E declamou uma poesia:
“Blog Negro Nicolau
Em abril vai festejar
Dez anos de existência
Podendo se orgulhar
Do trabalho informativo
Quem vem a realizar
---------------
Vinte e sete de abril
É uma data especial
Parabéns para esse blog
Coletivo e cultural
Afirmando a resistência
Que é bem essencial”.
Antônio Raimundo
Antônio trouxe para a conversa um pouco da sua
trajetória de vida, desde sua infância morando em Altaneira e sua paixão pelo
esporte, até o momento em que teve que deixar sua terra em direção a Brasília
onde reside atualmente. Segundo ele, acompanha diariamente o Blog e as
informações sobre o Nordeste. “Temos um pouco de saudosismos. E buscamos
saber sobre o que ocorre na nossa região através do blog”, disse.
O servidor público federal afirmou que aceitou
o convite para ser colunista porque deseja aprender mais, conhecer mais. “Escrever
não é fácil. Demanda não só tempo, mas cuidado ao pesquisar fontes para embasar
nossos textos”, mas assumiu esse compromisso. Por fim, elencou o trabalho
do Blog ao trazer a bandeira da equidade racial e de gênero.
Valéria Rodrigues
Foi exposto na conversa por Valéria a
dedicação e o compromisso diário de Nicolau com o blog. Frisou que tem surtido
o efeito desejado, uma vez que está exercendo um protagonismo na região do Cariri
com textos que discutem as relações étnico-raciais; o combate ao racismo, à
ausência de negros e negras na política partidária e em outros espaços de
poder; os caminhos para o fortalecimento das lutas dos movimentos negros; do
empoderamento; de personalidades negras que mudaram o mundo, inclusive
brasileiros/as, dentre outras temáticas.
Valéria relatou que aprendeu e que vem
aprendendo muito na relação com Nicolau que vem se mantendo fiel aos seus
princípios e as temáticas principais do Blog sem se deixar influenciar ou ser
cooptado. “Por diversas vezes falava pra ele sobre aceitar patrocínios, mas
ele dizia que não. Que não quer que as pessoas interfiram na sua forma de
escrever, nos temas a serem trabalhado. Os patrocínios para ele tira essa
liberdade”, disse ela. “E eu o entendo e o apoio”, destacou ao passo
que mencionou que além de colunista, atua como corretora ortográfica.
Francilene Oliveira
Já Francilene fez um resumo do seu histórico
de vida e de como acabou se reencontrando com as mídias. Destacou sua passagem
enquanto comunicadora na Rádio Altaneira FM a partir do programa aos sábados “Olhar
Jovem” e no jornal “Notícias em Destaque”, em que teve a participação como
repórter da comunidade. Segundo ela, foi uma experiência incrível, mas que
acumulou alguns dissabores com integrantes da administração, sem, no entanto,
precisar nomes.
A recém-formada em História (URCA) conta que
teve influências dos professores Fabrício Ferraz e Nicolau Neto na escolha do
curso e que este último foi e é importante referência na sua auto identificação
negra e indígena e fez das palavras da escritora Fátima Teles as suas.
“Se o seu blog fosse refém dos poderes
constituídos, se se deixasse influenciar pela polarização que se instalada e
acentuada nos últimos tempos aqui, eu não seria colunista”,
disse. Para ela, o blog trabalha temas que não são vistos nos demais diários.
Temas que são caros a população negra e isso é motivo para se orgulhar.
Dayze Vidal
Dayze abriu o discurso das colaboradoras do
blog. Ela trouxe a lume as parcerias de Nicolau com os movimentos negros do Cariri,
especialmente com o Pretas Simoa. Lembrou da palestra que foi convidada por ele
para ministrar na Escola de Educação Profissional Wellington Belém de Figueredo
(Nova Olinda), dos olhares atentos dos alunos e destacou a importância do
trabalho que ele fez com as personalidades negras.
Dayze apresentou um poema de Maya Angelou:
“Ainda Assim Eu Me Levanto – (“Still I Rise”)
Você pode me inscrever na História
Com as mentiras amargas que contar,
Você pode me arrastar no pó
Mas ainda assim, como o pó, eu vou me
levantar.
Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu ando como se eu tivesse poços de
petróleo
Jorrando em minha sala de estar.
Assim como lua e o sol,
Com a certeza das ondas do mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar
Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído?
Ombros curvados com lágrimas
Com a alma a gritar enfraquecida?
Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal,
Porque eu rio como se eu tivesse
Minas de ouro no meu quintal.
Você pode me fuzilar com suas palavras,
E me cortar com o seu olhar
Você pode me matar com o seu ódio,
Mas assim, como o ar, eu vou me levantar
A minha sensualidade o aborrece?
E você, surpreso, se admira,
Ao me ver dançar como se tivesse,
Diamantes na altura da virilha?
Das chochas dessa História escandalosa
Eu me levanto
Acima de um passado que está enraizado na dor
Eu me levanto
Eu sou um oceano negro, vasto e irrequieto,
Indo e vindo contra as marés, eu me levanto.
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me levanto
Em uma madrugada que é maravilhosamente clara
Eu me levanto
Trazendo os dons que meus ancestrais deram,
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto!”
E disse que é nessa ambiência que se encontra
o poder e importância do blog. “Sigamos, preto”, complementou.
Nelzilane Oliveira
A representante da ACB frisou que acompanha o
trabalho do Blog de perto há alguns anos e elencou diversas características que
colaboram para o sucesso e ao mesmo tempo o incômodo que o Blog causa, como o
colocar o dedo na ferida da sociedade elitista, machista, homofobica e racista.
“A gente não percebe isso sendo trabalhado nos veículos de comunicação
tradicionais”, disse.
“E é exatamente por isso, por essa narrativa
sustentada pelo Nicolau e pela equipe do blog que a ACB se fez parceira. É um
trabalho que se assemelha ao desenvolvido pela ACB”,
completou. E não descartou fazer parte do quadro de colunistas. “Quem sabe
um dia”, disse.
Paulo Henrique
Paulo começou citando o livro do altaneirense
Ricardo Vieira sobre o Projeto Arca. Na obra, diz ele, “é esmiuçado a
perseguição política em Altaneira a um grupo de pessoas e que acaba atingindo
todos aqueles que andam contra o sistema” e faz um paralelo com a história
do Blog que acaba sofrendo críticas sem fundamentação por não se deixar levar
pela polaridade instalada no município.
Ele enalteceu a “independência do blog por
segui uma linha séria, sem se deixar influenciar ou se envolver na politicagem”.
O blog “aviva nós negros e indígenas”, fez reverberar.
Lucélia Muniz (eu)
Fundadora do Portal de Comunicação Ubuntu
Notícias (Nova Olinda), Lucélia começou relatando a máxima “santo de casa não
obra milagre” para enfatizar que sua trajetória acaba sendo questionada e
muitas pessoas perguntam porque ela não vai morar em cidade grande. Destaca que
se deve resistir e que quando se trabalha com temáticas como a que o blog Negro
Nicolau trabalha, a tendência é essa. E é aí que reside sua importância.
Ao parabenizar o fundador Nicolau e toda
equipe pelos 10 anos de história, ela mencionou que “sabe dos desafios de
resistir e dá sequência ao trabalho prestado em cidade pequena”, ponderou. “Logo,
chegar ao aniversário de 10 anos é um ato de resistência,” finalizou.
Ana Karolyne
Karolyne fez menção a importância do blog para
uma comunicação antirracista no Cariri, tendo em vista que a forma de comunicar
nessa região ainda é muito carregada de estereótipos e violência.
“É muito significativo para mim, enquanto
estudante de jornalismo, acreditar que hoje as mídias negras se mantêm, mesmo
diante das dificuldades, a exemplo do Blog Negro Nicolau, que faz história nos
dias de hoje, não deixando morrer o legado do jornal ‘O Homem de Cor”,
finalizou.
Valéria Carvalho
Uma das fundadoras do Grupo de Valorização
Negra do Cariri (GRUNEC), Valéria, começou falando sobre Karla Alves. Segunda
ela, Karla foi e é muito importante, tanto para o grupo para sua família e para
o blog, pois é uma referência no estado. “Queria muito ter dito isso com ela
ainda presente”, frisou.
Fez menção ao papel do blog hoje e para as
futuras gerações. “Daqui a alguns anos serão seus filhos, Nicolau, que
estarão à frente do blog dando continuidade a esse trabalho de uma comunicação
antirracista”, falou. Ela também fez um apelo. “É preciso escutar os
mais velhos. A sabedoria africana diz isso. Vida longa, blog Negro Nicolau”,
completou.
Ana Tereza
A roda de conversa foi encerrada com Ana
Tereza. Ela destacou a amizade de longa data com Nicolau ao relatar que
estudaram juntos todo o ensino médio e ver hoje com alegria o tamanho da
repercussão que o blog vem tendo e o ativismo do Nicolau na luta dos direitos
civis e humanos das populações negras.
Presente no início do encontro virtual, o
colunista Alexandre Lucas teve que se ausentar em virtude de compromisso já
agendado, a exemplo do “Cultura, Movimento Comunitário e Direito à Cidade”. Quem
também participou por um tempo e teve que sair foi o Coordenador da Associação
Mensageiras da Paz (Crato). Segundo ele, o problema foi de conexão com a
internet. Kézia Adjanne, Josyanne Gomes (Colunista) e Márcio dos Santos
alegaram compromissos profissionais. Já Zuleide Queiroz (colunista) está
acometida com Covid-19, “a quem desejamos força para superar esse momento”,
disse Nicolau Neto.
Diversas pessoas tentaram participar da
celebração dos 10 anos do blog, mas não conseguiram. O relato foi feito por
Valéria Carvalho. “Muita gente aqui ficaram apreensiva por não conseguirem
entrar”, disse ela.
Em tempo, Nicolau Neto, ainda pediu desculpas a
todos que tentaram participar e não conseguiram. “Foi desatenção nossa que
quando começou o encontro, desligamos o wi-fi do celular e ficamos apenas pelo
notebook. Agradecemos aqueles e aquelas que estiveram conosco neste momento que
entrará para os anais da história da mídia negra no Brasil”, destacou.