sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O que fazemos com a exclusão digital?

As estatísticas sobre o acesso à Internet sofreram mudanças nos últimos 12 anos. Por exemplo, com base nos dados da Internet WorldStats constatamos que na América Latina houve um aumento de 10% na população que tem acesso à Internet, entre 2000 e os últimos dados disponíveis de 2012. É certo que tal aumento pode ser considerado moderado. No entanto, seu uso e influência sobre as atividades políticas e seu aspecto emergente como instrumento de mudança aumenta. Isso se deve também ao fato de que os hábitos dos usuários mudaram, e portanto não se trata apenas de um maior acesso mas também de uma maior relevância nas atividades humanas. A Internet transformou-se em uma aposta para a divulgação de informação e são cada vez mais numerosos os grupos e setores que a incorporam em suas táticas ou que a utilizam como ferramenta de trabalho. O mesmo ocorre com outras tecnologias e telecomunicações. Os nossos tempos trouxeram consigo novas categorias como cidadania e ativismo digitais, mas também soluções como Saúde Móvel (M-Health) ou Fonte Popular (crowdsource) (BRADLEY, 2013), para citar apenas dois exemplos dentre centenas ou milhares. A quê isto se deve? Uma resposta razoável a esta pergunta é que, apesar de seus limites em termos de acessibilidade, o uso de tecnologias, e em especial da Internet, é na realidade um dos meios mais poderosos para reverter assimetrias sociais (LEADBEATER, 2013). Por exemplo, as soluções de saúde móvel (nas quais as pessoas recebem em seus telefones informações relevantes) democratizam o acesso ao conhecimento médico. Se a afirmação for que poucas pessoas têm acesso à tecnologia digital móvel, imaginemos o quão limitado é o acesso à infraestrutura hospitalar e ao atendimento personalizado de um médico ou uma enfermeira. No campo do conhecimento, se pensarmos que só “x” por cento da população tem acesso à Internet, esquecemos que são ainda menos as pessoas que têm acesso a bibliotecas ou a literatura especializada (MARGOLIN, 2014). Em comparação com mercados que tradicionalmente foram de nicho, embora certamente usem meios por definição mais populares (como as consultas diretas com pessoal médico ou a leitura impressa de um tratado acadêmico), a Internet é uma forma de comunicação mais prática que serve para levar informação essencial para o exercício dos direitos ou para participar da promoção destes. 
A exclusão digital não é mais do que a manifestação de outras exclusões existentes em nossas sociedades. As organizações de direitos humanos trabalham tradicionalmente em prol de populações desfavorecidas, as mesmas que experimentam na própria pele a consequência da marginalização ou do acesso restrito e diferenciado (sem que tenham o dever jurídico de suportá-lo) a bens e serviços. O acesso desigual aos direitos é expressão de condições estruturais de assimetria na distribuição de bens simbólicos e materiais. Uma pessoa no meio rural está praticamente isolada dos órgãos governamentais. E, em muitos casos, a Internet é mais acessível do que pagar os custos de transporte de uma cidade a outra, por exemplo, quando se trata de fazer um trâmite para um programa de apoio governamental. A Internet tem maior capacidade de penetração que qualquer publicação impressa e a difusão e o acesso a um vídeo de denúncia sobre violações a direitos humanos na Internet é muito mais fácil do que conseguir a sua transmissão pelos meios tradicionais. Poucos espectadores sempre serão muito mais do que nenhum.
Como foi dito, a exclusão digital é a expressão de outras exclusões de tipo estrutural. Por essa razão uma pergunta continua no ar: como imaginar que as organizações, que também enfrentam escassez e trabalham com recursos limitados, poderão tirar proveito da tecnologia? A boa notícia é que neste contexto, diversas organizações desenvolveram processos para gerar tecnologia, recursos e soluções que possam ser compartilhados (inclusive de forma gratuita) com outras organizações, mitigando com isso determinadas condições de desvantagem e alcançando públicos mais amplos. O DNA das soluções tecnológicas dos nossos tempos é libertário, comunitário e participativo. Muitos projetos tendem, por razão genética, à redução de custos, ao intercâmbio, à aprendizagem horizontal, a complementaridade e ao desapego proprietário. Sob esta perspectiva, o uso de Internet é uma das alternativas mais consistentes para incluir grupos tradicionalmente excluídos em certos fenômenos de conhecimento ou divulgação de informação. É claro que isto inclui as organizações de direitos humanos, que se podem ver beneficiadas com esta tendência.
Agora sim, convém acudir ao abrigo das advertências convencionais dos “porém” ou dos “no entanto”, pois nós, as organizações da sociedade civil, enfrentaremos diversos desafios. Primeiro, para que isto funcione teremos que identificar as ferramentas digitais, estratégias e táticas, que são mais úteis para tirar proveito do momento tecnológico. As soluções são geradas com grande velocidade e há uma oferta excessiva de alternativas, não todas igualmente úteis nem relevantes para casos específicos. O risco é que se confunda o “quê” com o “como” ou que se escolham soluções pouco práticas, desnecessárias ou cosméticas. 
Adicionalmente, teremos que mudar a forma como utilizamos os recursos e priorizamos o uso das ferramentas. Não se trata de atuar estritamente com boa vontade ou da decisão de somar as tecnologias ao nosso campo de trabalho, mas sim de preencher um vazio no equipamento e nos recursos que dispõem muitas de nossas organizações (tanto humanos como de capital técnico). Por vezes o problema é muito concreto, existe uma brecha entre a decisão de inovar (em parte como resultado da tomada de consciência por parte de alguns ativistas em ralação ao potencial do uso destas ferramentas) e o conjunto de ações para realizá-lo. Decidir usar a tecnologia e a Internet exige que nos equipemos dos recursos necessários e isso, por si só, já é um desafio.
Em suma, tenhamos claro que a apropriação das tecnologias apresenta desafios como a necessidade de uma mudança cultural nas instituições e a ausência de referenciais técnicos entre os ativistas e o pessoal das organizações da sociedade civil. Contudo, a alternativa é uma realidade.

Miguel Pulido Jiménez. Ativismo em Direitos Humanos em tempos de saturação cognitiva. Falemos de ferramentas. SUR. Revista Internacional de Direitos Humanos. Rede Universitária de Direitos Humanos. v. 1, n. 1, jan. 2004. São Paulo, 2004.

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