terça-feira, 31 de agosto de 2021

E o Escritor Antônio Hélio da Silva tem a Crônica ORGASMOLOGIA NA CAATINGA publicada na Coletânea IMORTAIS IV pela Academia de Letras do Brasil/ALB | ARARIPE-CE

Lucélia Muniz

Ubuntu Notícias, 31 de agosto de 2021

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Antônio Hélio da Silva é Poeta e cronista. Membro da Academia de Letras do Brasil/Seccional Regional Araripe-CE. Cadeira 28. Patrono: Antônio Girão Barroso.

Sobre a Publicação

A Academia de Letras do Brasil/ALB, em parceria com a Editora Alternativa, após o sucesso das três primeiras edições (2017/2018/2019), convidou através de Edital, os escritores de todo o Brasil a participarem da Coletânea IMORTAIS IV. Esta histórica quarta edição confirma o destaque dos escritores independentes no panteão da literatura brasileira.

As coletâneas IMORTAIS já ocupam um lugar de honra entre as maiores coletâneas já publicadas no Brasil. A Coletânea, nesta quarta jornada, publicou poemas, contos, crônicas, ensaios científicos, artigos e trabalhos visuais, como pinturas ou imagens, revelando e ampliando a pujança e diversidade de nosso caleidoscópio literário.

E o Escritor araripense, Antonio Hélio da Silva, tem a Crônica ORGASMOLOGIA NA CAATINGA publicada na Coletânea IMORTAIS IV, pág. 464, da Academia de Letras do Brasil/ALB.

Confira a seguir a Crônica do Escritor Antônio Hélio da Silva que foi publicada na Coletânea IMORTAIS IV:

ORGASMOLOGIA NA CAATINGA

Ventanias de agosto balançam árvores e arbustos para afrouxar suas raízes na terra caatinga. Avisa aos troncos que as seivas do solo serão umedecidas para sua degustação. É a fase preparatória para a mega absorção compartilhada com todo o corpo do vegetal. Assim, agosto prenuncia que, a exemplo dos rabos de calangos e lagartixas, os caules da caatinga vão ser renovados e crescidos a ponto de quebrar as regras do calendário gregoriano e ter sua primavera fora de época. Florada sentida e apreciada pelas abelhas, borboletas e cuitelinhos. E o sertanejo, esperançoso da mesa farta, imagina mil coisas! A terra e o sistema com seus fatores climáticos e misteriosos deixam suspenses quanto ao inverno. As profecias também porque seguem as indicações dos mistérios do clima sertanejo.

Eu criança, convivendo na roça vivia esses fenômenos. Precisou alguns anos para vê-los. Passando os anos, eu vendo com os olhos e a mente a natureza, houve conexões para interligar aquele tempo com o tempo de hoje, mais consciente ao observar o ambiente em que vivo.    

Em agosto, as folhas que já estão amarelando de medo da “seca feroz” e outras já cinzentas, letalmente enganchadas entre garranchos, balceiros e espinhos judiados pelo assovio da cigarra, são levadas ao chão pelos ventos proféticos de agosto. E as mesmas folhagens que então emergiram da terra invisivelmente na ótica do olhar físico, veiculadas pelas entranhas da vegetação, voltam ao chão. Agosto faz a transição de retorno sem muitas algazarras. Apenas encarrega os ventos suis de tal missão.

O homem sertanejo vivendo no campo ou nas bucólicas cidades quase sempre nem percebe as ações dos ventos capoeira afora. As folhagens emolduram a terra formando crostas para suavizar o calor na superfície, simultaneamente preservando os nutrientes. Viram húmus e bolores que simbioticamente agem para esperar as primeiras chuvas. Até o sol de agosto é mais suave em nosso corpo e na face do solo. Não que ele diminua sua estupenda temperatura, mas a brisa que o vento deixou, gera uma camada protetora extensiva a todos, sem acepção. Refrigera capoeiras, tabuleiros e pradarias onde as corujas se pronunciam no anoitecer. O show da natureza acontece para sinalizar ao homem que sua parte de boas ações e cuidados com a terra maltratada está pendente e é para ontem. Uma delas é deixar de fazer queimadas desnecessárias. 

Avizinha-se o fim do ano e a chuva é esperada pelos vegetais e animais, incluindo os supostos humanos. Enquanto a chuva não vem, a noite unta a terra com sereno numa sutileza estrondosa que somente a natureza linda e bela sabe contar. As noites são confidentes das ações do planeta ao longo dos anos. Os primeiros pingos raleados de sereno resvalados pelas galhas “esclerosadas” pelo tempo seco, e folhas ainda restantes, formam adubos para a safra da biodiversidade a se revigorar no bioma caatinga.

E observa-se amortização do calorzão para diminuir o choque térmico na terra, pensando a sábia natureza nos húmus, bolores, germes e cogumelos silvestres que não devem ser destruídos. São as preliminares para a orgasmologia na caatinga, do pai sol com a mãe terra, ato a tudo gerar e criar. E é tão magnifica a fidelidade desses dois, um com o outro, que tudo flui para a consumação do ato da fecundação e germinação.

Também no oitavo mês, o pica-pau começa suas brocas cortando galhas dos tamboris e graviolas. “Via de regra”, essas árvores ficam nos monturos das casas dos agricultores. A atividade do passarinho é profética, para dizer ao homem que está na hora de fazer suas brocas porque vai ter inverno.    

Setembro intermedia o vento de agosto com o calor de outubro, sufocado pelas fumaças das brocas queimadas. O vapor vai às nuvens noticiando que a terra explode caso não chova. Por isso, os invernos intercalados. Enquanto há primavera, em outras regiões do Brasil, no Nordeste é sol de rachar o quengo do coco. Se em sequência por muitos anos, a terra seria torrada. E com ela, nós habitantes da sua superfície.

Outubro que só aparenta outono com a grafia, é indiferente, relativo a pomares e frutas. O Nordeste é diferente do Brasil.   

Novembro processa tudo para dezembro gerir e distribuir. A passarada já vai cingindo seus ninhos, tecendo seus cantares para as conquistas de seus grandes amores. Os projetos de suas fecundações são ponderados pelos machos e fêmeas. Alguns só namoram se tiverem certeza de que haverá sementes e frutas para pôr nos bicos borrachudos dos indefesos e lindos filhotes. A sábia coruja, se a concupiscência for mais intensa e real do que a profecia das chuvas; não gerando alimentos para seus filhos nascidos, ela os consome literalmente.

Chega dezembro! E no final do mês, quase todas as brocas já queimadas e cercadas. O mais tardar em início de janeiro é todo esperado de chuva. Dar-se conta de que houve certo clima demorado para a orgasmologia da terra com o sol. As estrelas enciumadas com as relações sistêmicas dos dois na baixa latitude, num climão bacana, são percebidas pela lua. Esta, musa do romantismo, querendo que a coisa esquente, nem clareia na noite que a chuva está para cair. Ela é cupido do programa e não se esquiva do que sabe. Vai sondar cenas do motel universal, escondida detrás das nuvens. As nuvens, num conchavo de cumplicidade, engrossam-se. É a ereção do céu para ejacular na terra. E formam um lençol azulzinho para acontecer a escuridão, a profetizar aos sapos que é chegada a noite de sair dos buracos e grotas para acordar o mundo. A ejaculação vai cair. Os sapos vão desencaracolar os membros para nadar na lagoa. Limpar as goelas com água fresca para o concerto da primeira madrugada de inverno. As nuvens também avisam as formigas para criarem asas, saírem dos esconderijos e voarem para escapar das cheias.

A vã e sente, mas não diz seus segredos para ninguém. Coincidência ou não, a primeira chuva é sempre a noite. Inquietas as nuvens pelo peso da consciência com o planeta ressequido, se chocam entre si, fenomenizando o relâmpago seguido do trovão. O sertanejo bicho e homem se anima. Já acomodados para o repouso, os primeiros pingos concretizam a chuva no telhado feito de barro cozido. É romantismo! É chuva! É inverno. O bioma está em festa! O sol e a terra se amando! Sapos mais lerdos só saem do esconderijo quando ele se enche e transborda. Com os mais ativos, o coro noticia ao mundo da caatinga que já é inverno. E há muitas águas rolando. O bioma está banhado para flertar a caatinga e gerar diversidades múltiplas.   

O dia nasce com o sol. No terreiro, cabritos escaramuçando. Meninos com os pais nos barreiros, nos açudes e riachos, olhando as enchentes. O café fresquinho nas trempes e a mãe recomendando que tomem e demorem para sair na frieza senão dá congestão e morrem. O agricultor sai de casa para trabalhar em dobro, comparando com o período de verão. No segundo dia da chuva – Ato orgasmológico da natureza, a babugem aponta. São filhas precoces da esperança do nordestino que habita a caatinga protegida pelo bioma.

A terra é gestada pela chuva e pelo sol. O homem a engravida com a enxada. Na friagem ou no mormaço, coloca sementes no seu útero. Não faltando chuva, o parto é certo. Em 20, 30 dias, ainda em janeiro – Não havendo estiagem prolongada, a primavera de setembro em outros lugares, chega ao sertão com as primeiras flores silvestres. E não demora a florada do feijão.

Neste estágio da caatinga, a vegetação que fora desfolhada e seca pelo verão longo, encontra-se verde e enfolhada, esbanjando lindas paisagens e produzindo alimentos para a humanidade. Só a caatinga tem esse poder. O milagre da natura do Nordeste brasileiro.

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