terça-feira, 3 de novembro de 2020

CONTO - ARRANJO DE AMORES Por Antônio Hélio da Silva | ARARIPE-CE

Lucélia Muniz

Ubuntu Notícias, 03 de novembro de 2020

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Por Antônio Hélio da Silva – Contista e Jornalista

Ela perdeu o marido. Ele perdeu a mulher. Ela foi visitar o esposo no cemitério. Ele foi visitar a esposa no mesmo cemitério. O primeiro Dia de Finados, após as perdas. Levaram flores. Os jazigos do mesmo modelo ficavam próximos. Saudades, idênticas. As mesmas dores. Os filhos em casa. Filhos adolescentes não têm muita coragem para sofrer nos jazigos dos pais.

Ele e ela trocam afagos. Ajuda nos arranjos de flores. Carícias nos olhares. Encontros acidentais das mãos. Procurando fazer tudo que podem, para reverenciar seus amores que se foram. Vivos ainda em seus corações. São da mesma cidade. Contudo, não se conheciam. Choram com os relatos. Olhares solidários confortam a cena triste. Ambos enxugam com as mãos, as lágrimas um do outro. Lenço seria estratégia – Nada a ver com o momento.

No segundo visitar, coincidência. Os dois de novo. E nada fora combinado. Regavam com lágrimas, as flores murchas sobre a lápide. Regar flores viçosas seria estratégia – Nada a ver com lágrimas de perdas. Daquela vez, enxugar lágrimas compartilhadas também não fluiu. Oportunismo ali não cabia. Choraram comentado o sofrimento dos filhos sem mãe. Sem pai.  

Disse ele que não se segurou sem chorar, quando foi a primeira vez banhar a mais novinha para levar ao colégio. Ela, quando levou o mais novinho na sorveteria do bairro. Ele saiu do banheiro arrasado chorando com a filhinha nos braços. Ela passou na praça para o caçula brincar com os amiguinhos. Os dois chegaram em casa chorando.

E não havia mais visitas de ninguém. Depois da missa de trinta dias, com exceção daquelas visitas que da igreja mesmo ou do cemitério foram as suas casas; as visitas cessaram.

Em outros encontros casuais no cemitério, comentaram que estavam sofrendo muita solidão. Sozinhos... Enfrentando a perda e o dia a dia. Realidade cruel. Os pais deles moravam noutras cidades. Dali em diante, tinham somente uma certeza: só contavam com os filhos e alguns bons vizinhos. Ela se desdobrando para os filhos, na cozinha e no emprego. Ele contratou uma doméstica. Não conciliava a cozinha com o trabalho e os filhos. Apesar de saber fazer tudo de casa. Só que a menina maior não comia as comidas que a empregada fazia. Então, sexta, sábado e domingo sempre a levava com os outros no restaurante. Quando era para saírem, a pequeninha as vezes ia ao quarto do casal chamar a mãe para ir também. E todo mundo chorava. O pequeninho dela perguntava pelo pai. Queria com ele jogar bola no quintal.

Também foi dito que os caçulas estudavam de manhã. E que logo nos primeiros dias da volta às aulas, após a fatídica tragédia, chegaram com eles atrasados na escola. Antes... Pontualmente faltando 5 minutos para as 7 horas, suas crianças chegavam no portão da escola. Com uma semana atrasando todos os dias, a diretora os chamou após levarem as crianças na sala. Mais uma situação comum aos dois, apesar de em estabelecimentos diferentes. Disse a diretora: eu tolerei a semana inteira com sua criancinha chegando atrasada. Mas assim ela vai se prejudicar. Está perdendo o início da primeira aula de todos os dias! Não vai acompanhar os outros. Peço que chegue a partir de amanhã, às 7 horas. Só haverá tolerância de 5 minutos. Enquanto as diretoras falavam, contaram que não tiveram nada a dizer com palavras. Somente enxurradas de lágrimas falaram por eles. E que as diretoras concluíram as falas embargadas de voz, com lágrimas caindo nos papéis sobre o birô.  

O amor em tempo comum, em circunstâncias idênticas surgiu. Sem pedido de namoro nem apelo. Só perceberam que já estavam namorando, ao se beijarem num impulso. Um quase beijo roubado simultâneo. Naquele dia, resolveram logo se casar.

Alianças na próxima visita. Ele disse aos filhos que havia conhecido uma mulher. E pediu permissão para com ela se casar. Todos choraram, inclusive ele. A maiorzinha só aceitava se ela fosse do jeito da mãe. Ele sincero, argumentou que isso era impossível. A menina disse: pois não aceito. Ele pergunta: você não quer conhecê-la? A filha meneia a cabeça que não. Ao ver lágrimas caindo do rosto do pai, meneia sim... Ele a abraçou... Ela ficou um tempinho inerte. E o abraçou também. Ambos chorando.   

Ela disse aos filhos que havia conhecido um homem. E perguntou se podia se casar com ele. Todos choraram. Ela também chorou. O menorzinho disse que só aceitava, se ele brincasse de bola no quintal do jeito do pai. As famílias se visitaram. Banhos corridos.

Ele entrou na Matriz, conduzido pelos filhos, que permaneceram ao lado dele. Quando ele a recebeu diante do altar, abraçando as crianças dela, que lhe entregavam; ela abraçou as dele e disse com os olhos vermelhos: sonhei Elisa se casando com Carlos Eduardo.  

Texto escrito em: 02.11.2017.

Araripe – Ceará, 01 de novembro de 2020.   

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