segunda-feira, 28 de setembro de 2020

HOMENAGEM ÂNGELO ROMÃO – O REPENTISTA por Antônio Hélio da Silva

Lucélia Muniz

Ubuntu Notícias, 28 de setembro de 2020

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 Por Antônio Hélio da Silva - cronista e jornalista

No olor do mato seco, das brocas na quentura ao som da cigarra enroscada nos galhos retorcidos pelo calor, vive o nordestino oito meses do ano, enfrenando altos e baixos, driblando as agruras da vida.

Já alguns meditaram nas madrugadas, existência de lugares melhores que o meio onde nasceu e se criou. E desnorteados pela fome assolando sua casa e a vizinhança, um pau de araras ambulante os levou para longínquas paragens. Os dribladores de agruras suportaram e suportam sofrer em demasia e ainda habitam o sertãozão esturricado de falta d’água. Esses vivem na romaria da vida em busca do arroz com feijão de cada dia. E o sofrer não é 100% sofrer. Há a recompensa nos tempos bons de inverno.

O João de Barros fazendo casa profética de inverno e seca. O casaca de couro arrancando arroz nascido na cova no verão. Verão sapecando arbustos do baixio onde uiva o cachorro doido. Arroz maduro torrado no caco e desocupado no pilão. Tudo isso faz parte da geograficidade do bravo sertanejo. Esse não vive a sonhar com terras sudestinas nem nortistas a lhe atrair para lá. E se sonha, não põe em prática a exemplo do sonho com bichos das roletas cosmonianas. E vai o homem do campo, ruminando em busca de sobrevivência com opções que somente ele e quem o sertão habitou conhece. Canapum encontrado ao capinar a roça de feijão associado ao milho. Melancia da praia ao limpar do arroz na parte mais alta do baixão. Icó achado pelos meninos de baladeiras caçadores de passarinhos no marmeleiro verde durante o inverno. Mel de enxu verdadeiro debaixo do balceiro ao pé da cerca antiga de vara se delindo com o tempo. Croatá que ao ver o menino, bluetooth-fa ao fígado toda a acidez (antes mesmo de chegar à boca). Rabo de raposa no caminho da roça ao canto pavoroso do Papa-lagarta. O fruto do mandacaru, perfurado ou não pelo sanhaço, só não é mais saboroso do que a pinha madura, no ponto, que a avó guarda na parte de baixo da cristaleira para o neto que vai chegar da rua. Nenhuma vó é interesseira. Mas sabe ela que vai ganhar do neto uma travessa de cabelo e um vidrinho de óleo de coco. Sem contar com o abraço que somente Vó, Vô e netos sabem dar. 

Com todas as maravilhas que se vive no campo, acho até que se a terra é nossa mãe, o sertão é nosso pai. E não há outra maravilha maior do que se criar no campo participando de tudo que é dele junto a família. Principalmente se visto com efeito retroativo. Visto nessa perspectiva, o cronovisor do tempo é simplesmente máquina que viu o passado e não revelou para ninguém. Só sabemos que há, através da mídia. E ainda com possibilidades de ser boato. Já meu retrovisor mental é a máquina que viu o passado, previu o futuro e me revelou tudo no presente, com o frescor da retroatividade. A você que também possui esse retrovisor mental, será revelado. Basta regressar sua mente ao alcance do passado. Se fizer, recomendo que escreva. Assim o leitor também saberá. E o sertão ficará em mais um papel de memória.

O camponês resistente é dono do usufruto das primícias que a terra produz. O suor regando com esperança cada centímetro de solo, demarca a poesia que o homem há de colher para demarcar seu campo de trabalho, na arte de viver bem.          

As atividades campesinas não se tornam rotinas. A diversidade de solo, das plantas, árvores, tempo e clima, torna peculiar cada instante no campo. A roça quase sempre é a grande mesa do almoço. “Nove e meia ele é almoço tarde”. O melhor relógio do campo no período da manhã é o estômago. À tarde, já foram um dedo, sombreando 4 dedos. Quem começa às 5 horas, nove, já direciona olhares para o caminho que traz o almoço. Enquanto não se ouvi o grito da dona de casa ou do trazedor do rango no aceiro da roça, uma tamboeira de melancia é quebrada na pedra e comida por todos sob a neblina que antecede a chuva. O meninote que vai beber água na cabaça ao pé da moita, nem tanto pela cede; mais para aliviar as mãos calosas, vai pegando flor vermelha de mel orvalhada e sugando para enganar o estômago “que não ver a hora” de se fartar na comida com galinha caipira cozida. A mistura sacrificosa à galinha é um brinde ao trabalhador animado pelo campo todo verde.

Êita sertão misterioso e original! Sua gente sublime e santa não tem 1% do conforto que tem a gente violentada da cidade. As palavras bonitas do sertão nem ousam chagar a cidade. Vaga-lume, bila, pernoite, baladeira; na cidade se camuflam de pirilampo, bolinha de gude, hospedagem e estilingue.

Quem na história se sai melhor é o violeiro que sabe tudo e esbanja cultura aonde estiver.  Seja cultura da terra quente. Seja das terras alagadas Marianas e Brumadinas das Minas Gerais. Da cidade nem conto! Do sertão é ele, e sabe mais do que quem sabe muito. A diferença enorme de repentista para poeta bissexto, sequer ouso me atrever. Não menosprezando Aníbal Machado nem Joaquim Cardozo. A cultura sertaneja é de êito, de improviso. Não se estuda para fazer repente, trabalhar na roça, fazer arapucas, fôjo, nem se educar. E se planta, se limpa mato, colhe-se feijão, se pega preás e há educação da criança ao adulto. E em seca ou inverno, o agricultor ainda recebe com banquetes e festas o povo urbano que ele sustenta o ano inteiro, a troco de preços parcos. E muitos cidadãos pouco sabem dessa ciência empírica só avistada pelos filósofos e poetas.

Repentista! O próprio vento é quem diz e aponta sem riste. Basta chegar uma brisa no Carão do Carão e revelar que vai chegar inverno... Mestre Ângelo Romão já desveste sua viola e na intimidade entre ela e ele, magôa os dedos para massagear a inspiração e jorrar poesia aos varões, varoas e a patroa. A vizinhança acorda com as cordas prateando os crepúsculos a serviço do nascer e morrer do dia. O presente da cantoria chega a qualquer hora sem avisar. Já os visitantes, esses se deleitam com tudo programado e repentes refinados pelo anfitrião-mor do Carão.

Oh sertão que dorme e não cochila! A poesia é tão sua, quanto são seus dialetos e lamentos desejosos de chuva e boa safra.

Texto escrito em: 29.01.2019.

Araripe – Ceará, 26 de setembro de 2020.                                                       

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