terça-feira, 4 de agosto de 2020

ESTOU MODIFICANDO O SAARA Por Cláudio De Musacchio

Lucélia Muniz

Ubuntu Notícias, 04 de agosto de 2020

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Cláudio De Musacchio (Professor Musacchio)*

*Organizational Behavioral Psychology; Corporate Educator; Brasilian Editor SCIRP; Conselheiro Educação

O mais importante projeto do planeta Terra, é sem dúvida alguma, o projeto de engajamento das culturas e povos em educar seus descendentes. O transporte do ontem para o amanhã é a educação. A ferramenta mais perfeita que o homem construiu em toda a sua história. A ferramenta que modifica pessoas, que constrói intelectos, que subverte a ordem natural dos mundos próprios, cujos organismos transcendem as suas dimensões físicas, cognitivas e intelectuais, para patamares muito superiores àqueles existentes na hereditariedade. Esta ferramenta é a linguagem e a sua condução é a palavra.

Jorge Luis Borges, ensaísta argentino, escreve em seu livro ATLAS, numa passagem em que descreve seu momento no Egito.

- Aos pés das pirâmides, tomei um punhado de areia nas mãos, caminhei alguns passos, e despejei a areia um pouco mais a frente e disse pra mim mesmo: - Estou modificando o deserto do Saara. No livro o autor diria que foi a passagem mais marcante em sua visita ao Egito.

A lição que fica é que somos capazes de mudar o mundo com os gestos, a vontade, o espírito empreendedor das novas gerações. Mas é preciso inovar. Inovar sempre. Imaginar que simples grãos de areia, transportadas para outro lugar, modificam a paisagem, e a nós mesmos.

As habilidades de transformar coisas, vivenciar momentos, imaginar histórias, estão sendo trocadas por outras atividades que nada contribuem para o desenvolvimento cognitivo e intelectual das novas gerações. É preciso pensar como estes comportamentos observados dos jovens de hoje vão se traduzir no ser humano do amanhã.

Estamos trocando as habilidades de pensar através da leitura dos livros pelas fotos prontas, acabadas, publicadas nas redes sociais. Estamos trocando nossas distintas formas cognitivas de aquisição de informações e construção de conhecimento. Susan Greenfield chamava esta função de função fabuladora, onde os contos e as fábulas das histórias eram lidas pelas gerações e estas tinham que exercitar sua imaginação, ao construírem as imagens das histórias, com suas lições e morais implícitas. As histórias tinham funções de colaboradoras na formação do caráter, da ética, da moral e dos bons costumes.

Hoje a função é perceptiva, isto é, os jovens estão com todas as histórias prontas, narradas em formato de vídeos ou filmes. Não há exercício da imaginação a ser desenvolvida. Tudo é dito e mostrado explicitamente. Espera-se que estas gerações dos últimos 15 anos, com o nascimento do Facebook e outras redes sociais, tenham um tipo de cognição muito distinta e peculiar se compararmos as gerações anteriores.

Antes, as imagens de mundo eram contadas pelos familiares, estavam nos livros, eram discutidas em sala de aula. Havia uma procura pelo sentido de cada imagem de mundo que queríamos passar para as crianças e adolescentes. Hoje, as imagens foram substituídas por imagens banais, vindas de todas as partes do mundo, e que não fazem o menor sentido para cada indivíduo que toma posse dessa imagem. O volume e a velocidade se apropriaram dos nossos momentos diários com tal força que não conseguimos mais sequer imaginar mais nada.

Por estas e outras razões, os níveis de angustia, ansiedade e depressão aumentam paulatinamente entre as pessoas, porque elas estão em contato com uma imensidão de fatos e histórias que não lhe fazem sentido algum, tratando-se de muita informação sem sentido para elas. As informações são despejadas aos milhares de mensagens de WhatsApp e posts de Facebook, tirando das crianças o protagonismo da criação das histórias e os papeis e personagens vivenciados no momento do brincar.

Além disso, as nossas capacidades de reflexão e crítica sobre estas imagens banais, diminuem torrencialmente porque não estão sendo construídas segundo nossas realidades e identidades. Estamos nos universalizando e perdendo o contato gradativo com o nosso grupo local. As histórias nas rodas das fogueiras estão sendo substituídas por conteúdos que não nos dizem respeito e não fazem o menor sentido.

É preciso perceber, portanto que a vida atual nunca foi tão rica como agora. Temos a tecnologia colocada e acessível a todos. Temos uma imensidão de pessoas com espírito empreendedor, desenvolvendo ações como coaching, a serviço do esclarecimento sobre quase tudo. Temos a velocidade máxima instituída, o momentâneo e o espontâneo, surgindo a cada segundo.

Nada é mais importante do que a educação. A ação de informar o outro é permitir que ele vivencie o seu momento do agora. A educação é a ferramenta que irá produzir gente. Sem ela a gente produzida fica incompleta, mutilada, mirrada, sem futuro promissor algum.

A educação dada a todos torna o planeta possível e viável. Mas se dada a apenas alguns, ela se torna inviável, e a desigualdade aumenta, tornando o projeto civilizatório improvável. A educação ao mesmo tempo que nos liberta para um futuro magnífico, sem ela é a causadora do nosso provável fim.


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