terça-feira, 21 de novembro de 2017

Profª Mestra Tayane Silva concede entrevista ao Ubuntu Notícias sobre GÊNERO e RELAÇÕES SOCIAIS

Professora de Sociologia Cícera Tayane Soares da Silva* da EEM Padre Luís Filgueiras de Nova Olinda-CE
*Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Regional do Cariri-URCA, Mestra em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba- UFPB e recentemente foi aprovada no Doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN.

Na oportunidade a Professora Mestra Tayane Silva concedeu uma entrevista para o Ubuntu Notícias ressaltando as questões de gênero dentro do contexto das relações sociais.
Confira a entrevista a seguir!
UBUNTU NOTÍCIAS - Qual a relevância de se trabalhar a temática referente a questão de gênero no ambiente escolar?
TAYANE SILVA - Estamos diante de uma conjuntura política ampla, que está influenciando diretamente a maneira como nós nos portamos e pensamos a nossa realidade social. Frente a isso, nós enquanto educadores somos formadores de opiniões, e isso é uma faca de dois gumes, haja vista que podemos a utiliza-la a serviço de uma educação que consiga pensar as novas demandas sociais, ou continuamos a reificar posicionamentos que são postos pela mídia e por uma elite conservadora que busca a todo custo legitimar uma cultura da intolerância e do ódio pelas minorias. As discussões de gênero no atual cenário político do Brasil estão ligadas diretamente as noções de conservadorismo e da religiosidade. Logo essas discussões perdem o seu caráter político, haja vista que todo o discurso construído, via senso comum, obedecem a esses dois aspectos ora apontados. Fico extremamente preocupada com os rumos dos acontecimentos a nível local e nacional. Nunca se noticiou tanto os casos de pessoas agredidas e mortas pela intolerância (seja ela de raça, classe e/ou gênero, também nunca se pensou tanto no papel de omissão que as instituições sociais vêm desempenhando para compor esse quadro de intolerância. Percebo que é papel da escola construir um ambiente que consiga acolher as diferenças e repensar os modelos cristalizados que nos foram impostos ao longo de anos. Discutir gênero não é impor sexualidades a terceiros, não é influenciar como muitos leigos afirmam. Se quisermos construir uma sociedade mais humana, precisamos politizar o nosso discurso. A escola não deve se omitir a essas discussões, muito pelo contrário. Então, se idealizarmos uma sociedade mais justa, onde todos os indivíduos tenham as mesmas condições precisamos chamar essas questões para o debate. Precisamos apontar que o outro, que escolheu viver uma vida diferente da minha, não é “menos humano”. Então, pensar o gênero é algo de extrema importância, pois através disso que podemos repensar todos os papeis sociais que nos foram colocados ao longo de anos. É preciso pensar, e esse pensamento tem que sair do senso comum e dos achismos que embasam essas questões. As discussões sobre gênero na atualidade estão permeadas pelo etnocentrismo. Assim temos que desconstruir, temos sim que abordar o gênero não só na escola, mas fazer com que esse diálogo chegue à família e em outras instituições. Ou seja, não iremos nos calar. “O negro não volta para senzala, a mulher não volta para a cozinha e nem o gay volta para o armário”. 

UBUNTU NOTÍCIAS - Como a professora analisa a elaboração de projetos de lei que limitam e/ou até proíbem o desenvolvimento de um trabalho educacional voltado para a questão do respeito, da inclusão e porque não dizer de uma cultura de não tolerância a violência? Será que as políticas públicas dão conta do abismo social que vivenciamos ora pela inclusão ora pela falta de oportunidades?
TAYANE SILVA - Permita-me abrir um parêntese na minha fala, essas políticas são criadas seguindo certos tipos de modismo por pessoas que não conseguem se quer se desvincular de suas pré-noções, imagine criar uma lei que contemple indivíduos (no caso, nossos alunos) que eles não chegaram nem a conhecer. Nós só podemos questionar algo, quando nos tornamos conhecedores, e, infelizmente não vejo isso acontecer. A nossa cidade é um exemplo vivo disto. Os discursos proferidos pelas autoridades não têm veracidade nem legitimidade, são opiniões que se dissolve aos primeiros questionamentos. Já presencie argumentos de pessoas que defendem tais “leis”, e a melhor justificativa para sua implantação é a seguinte: “Mas Deus criou homem e mulher”. Veja, são discursos que estão embasados diretamente com teor religioso, no entanto temos que levar em consideração que o estado é laico e que pensar essas questões devem partir do princípio da ciência. Mais uma vez, os argumentos são falhos. Fico me perguntando quantos livros essas pessoas que estão propondo essa lei leram? Quais os conhecimentos que os mesmos têm com a causa? Qual a sua formação? Eu acho que um projeto de lei desse nível é uma afronta aos diretos dos indivíduos. Há seis anos me dedico a esse campo de pesquisa e todo dia encontro questões novas para serem pensadas e analisadas. Barrar essas discussões é cultivar sim uma cultura da intolerância e da violência. Como você enfatizou no enunciado da questão, estamos vivendo um período onde falta tudo, falta inclusão, falta oportunidade, falta sobretudo educação. Então, eu sugiro que essas pessoas retornem aos livros e consigam sair das suas caixinhas vazias as preenchendo com conteúdo e políticas públicas que de fato sejam benéficas para a sociedade novolindense.

UBUNTU NOTÍCIAS - Afinal, dentro da abrangência da temática gênero, como definir o modelo de família, citado em muitas ocasiões como “família tradicional”? Podemos dizer que há um ideal de família?
TAYANE SILVA - Quando falamos de gênero e família estamos trabalhando com dois conceitos diferentes. Quando abordamos o gênero estamos diante de uma definição que via de regra procura pensar os papeis sociais que são colocados pela sociedade desde que nascemos, ou até mesmo antes desse nascimento. Por família, compreende-se uma instituição que é responsável pela formação dos indivíduos, seus costumes, suas crenças. Enfim, pensar essas duas definições, é levar em consideração o contexto sociocultural que estamos inseridos. A cultura é dinâmica, ela muda constantemente a todo tempo. Logo, precisamos acompanhar esse fluxo cultural onde nada é fixo, inclusive a própria definição de família. Hoje o modelo de família (pai, mãe e irmãos) não consegue dar conta da variedade existente.  Temos famílias compostas por duas mães, dois pais e isso continua sendo família, apesar de muitos questionarem suas formações. Em pleno século XXI as pessoas ainda consideram “anormais” filhos que são criados por pessoas do mesmo sexo. Estamos tendo uma inversão de valores onde os casais heterossexuais que colocaram no mundo pessoas e as abandonaram não são questionados. Por outro lado, pessoas (do mesmo sexo) que resolvem adotar uma criança é vítima de ofensas e contradições. É... bem vindo a sociedade do falso moralismo. Para concluir, acredito que existe sim um modelo de família e esse modelo é heterossexual, branco e elitista. Esse preconceito só deixará de existir quando a gente educar nossos alunos a pensar fora de suas caixas, a enxergar que a vida do outro não precisa ser aceita, nem muito menos ser praticada, ela só precisa ser respeitada sem questionamentos. Todas essas questões giram em torno do respeito e honestamente saliento: essa cultura do respeito não será criada nem fortalecida com projetos de leis vazios de sentidos e significados. 

Agradeço, a Professora Mestra Tayane Silva pela entrevista concedida ao Ubuntu Notícias!

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