quarta-feira, 2 de março de 2016

Elas por Eles com Nicolau Neto

José Nicolau da Silva Neto
Graduado em História com pós-graduação em Docência do Ensino Superior.
Professor, nascido em Assaré-CE e residente no município de Altaneira-CE.
ENTREVISTA nº 02
Lucélia Muniz - Dentro do contexto atual, na sua opinião, quais as principais conquistas alcançadas pelas mulheres?
Nicolau Neto - Falar das conquistas das mulheres nos leva a nos referir a um universo de outrora que foi muito perverso para com elas. A trajetória de submissão, exploração faz parte da vida de muitas mulheres. Na antiguidade, elas não podiam exercer sua cidadania, aliás, se quer eram consideradas cidadãs. Durante a idade média, passou-se a percebê-las como objetos e, ou moedas de trocas, especificadas muito bem nos casamentos arranjados com colaboração da instituição religiosa de cunho católico que, diante do poder emanado, mandavam e desmandavam na sociedade do período. Veio a modernidade e, poucas mudanças foram efetivadas.

A luta do feminismo por igualdade em todos os espaços ganha corpo somente na contemporaneidade. Em 1848, quando teve início o movimento feminista, na convenção dos direitos da mulher em Nova York (EUA), as reivindicações emergiram em virtude das grandes revoluções. É importante lembrar que as conquistas oriundas da Revolução Francesa, que tinha como lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade, foram reivindicações das feministas porque elas acreditavam que os direitos sociais e políticos adquiridos a partir das revoluções deveriam se estender a elas enquanto cidadãs. Algumas conquistas podem ser registradas como consequência da participação da mulher neste processo, um exemplo é o divórcio.

Notadamente que, muitas conquistas foram sendo efetivadas de forma lenta, gradativa e com muita luta. Porém, hoje se pode perceber resquícios dos pensamentos de outrora como, por exemplo, o velho e péssimo clichê: “lugar de mulher é em casa, cuidando dos filhos”. Ao passo que muitas mudanças positivas aconteceram e continuam, a passos lentos, acontecendo. O voto universal também se faz necessário citar.

Lucélia Muniz - Em pleno século XXI, quais situações ainda são enfrentadas pelas mulheres? Seja na questão de gênero, na falta de políticas públicas e/ou no contexto socioeconômico.
Nicolau Neto - Às vezes, ou quase sempre fico a me perguntar se se tem realmente o que se comemorar no dia Internacional da Mulher. Por quê? Ora, nos últimos três anos houve um retrocesso tão grande que só se compara com aqueles em que as mulheres eram taxadas como o “sexo frágil”. Em 2013, por exemplo, o conservadorismo em diversos setores da sociedade foi marcante, tanto que foi necessário a mobilização de movimentos que lutam em defesa da visibilidade feminina para que direitos e conquistas já editados na Constituição Federal de 1988 não fossem jogados pelo ralo. No ano de 2014 seguiu o mesmo passo e 2015 foi ainda mais desastroso para todos, principalmente para a classe feminina, comprometendo o ano que acaba de começar. Falo da eleição de deputados e senadores mais conservadores de todos os tempos, mais até do que em 1964, pois nesse período o Brasil vivia sob o julgo da ditadura, mas hoje o regime é democrático e sendo uma democracia é inconcebível certas atitudes parlamentares.

Foi desse congresso por exemplo que saiu o argumento de que as mulheres teriam que ter provas mais consistente para o estupro, pois o simples relato ou marcas no seu corpo não mais seriam suficientes. Acredito que para o congresso (falo em nome de pessoas como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e Eduardo Cunha) só umas selfies (com a legenda – Olha ai eu sendo estuprada! Prenda-o!) das mulheres registrando o ato serviria como prova.

Se não bastasse isso, elas ainda têm que enfrentar a violência física e psicológica. De acordo com estatísticas, o Brasil ocupa por três anos consecutivos o 7º lugar entre aqueles com maior número de homicídios femininos. Esses dados aumentam quando se refere a mulher negra. As mulheres negras são as maiores vítimas desse caso. As estatísticas do Mapa da Violência afirmaram que dos índices de assassinatos 60% são negras. Para além desses pontos mencionados, o universo feminino ainda tem que enfrentar o machismo que insiste em permanecer na mente fraca e doente de muitos homens, o racismo – a maior praga já existente e causador de muitas atrocidades (a maior delas o sistema escravocrata) e hoje define o lugar na sociedade.

Não se pode esquecer ainda que a estrutura partidária se configura com um dos maiores empecilhos para a representação da mulher nesse ambiente. Para se ter uma dimensão do que ora se menciona, o Brasil é o país da América Latina que possui a menor quantidade de mulheres na política. Dados divulgados pela Inter-Parlamentary Union (IPU), órgão que reúne dados sobre o Legislativo em todo o mundo, mostram que apenas 13% das mulheres brasileiras estão no parlamento. Esses dados caem mais da metade quanto a mulher negra.

Lucélia Muniz - E como a Educação pode ser usada como uma “arma” no combate a estas situações?
Nicolau Neto - Em primeiro lugar trabalhando bem o 08 de março de uma forma que se possa desmistificá-lo. Fazer isso significa debater desde cedo que ele não é uma data para se comemorar o dia Internacional da Mulher, simplesmente.  Mas um dia para se refletir sobre as condicionantes históricas que ensejaram a organização da classe feminina em prol da luta visando à conquista de seus direitos, da sua inserção no mundo sem serem submissas ao mundo machista. Promover rodas de conversas acerca de ações que venham a se configurar como mais uma oportunidade de rever as forças e a organização dessas guerreiras que passaram anos e anos sob o julgo do exacerbado machismo.

Disciplinas como História, Filosofia, Sociologia e Formação Cidadã são as ferramentas mais fortes na promoção desse debate no seio escolar, afinal de contas, essa data que as pessoas notadamente insistem apenas em comemorar sem refletir, surgiu em 1910, em Copenhague, durante a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas. Trata-se, portanto, de demonstrar que é um dia dedicado à luta das mulheres trabalhadoras, notadamente. É momento de reforçar o espírito de solidariedade internacional, dia de rever a força e organização das mulheres identificadas com a luta contra todas as formas de dominação, exploração e opressão.

Lucélia Muniz - Neste Dia Internacional da Mulher, no mês de março, qual Mulher você gostaria de homenagear em nome de todas? Por que?
Nicolau Neto - Quero homenagear duas mulheres. A primeira delas é minha mãe – Neusa Lourenço da Silva. Mulher negra que desde cedo soube fazer das dificuldades degraus para alcançar as vitórias. Descrever uma mulher é difícil e quando essa mulher é sua mãe, torna-se mais difícil ainda. Não porque não tenho o que dizer, ao contrário. São tantos adjetivos que nem sei por onde começar. Mas definirei em três palavras, a saber, FORTE, GUERREIRA e IDEALISTA. Foi ela que me ensinou que se combate o racismo denunciando e não fingindo não sofrer ou calando achando que se não falar ele acaba.
A segunda é Valéria Rodrigues. No último dia 20 de novembro dia dedicado a mais um momento de análise e reflexão crítica acerca das ações sobre a valorização da cultura africana e afro-brasileira nos espaços de poder, completou-se um ano em que Valéria Rodrigues nos oportunizou conhecê-la. Nesse curto período de tempo convivi (e estou convivendo) com uma pessoa simplesmente maravilhosa que tentarei - mesmo sabendo que o espaço não é suficiente para caracterizá-la - externar alguns adjetivos que são inerentes a sua pessoa: Amiga, Companheira, Dedicada, Compreensiva, SOLIDÁRIA, Inteligente (e sabe usá-la em todos os momentos), Sábia, Meiga, Linda por dentro e por fora...... Com você aprendi e muito. Aprendi a desenvolver outras habilidades que estavam adormecidas. Aprendi a adentrar em outros espaços que, mesmo respeitando a coletividade, hesitava em entrar. Aprendi que desistir mesmo quanto tudo conspira contra, é inaceitável, pois, como você mesmo diz - "há outras pessoas que, mesmo sendo poucas, se inspiram em nós e é a elas(es) e por elas(es) que devemos continuar a ter esperança de um mundo melhor". Aprendi que conviver não é tarefa fácil, mas necessário para promovermos mudanças significativas na sociedade, tão carente de mentes solidárias e com espírito de ALTERIDADE (como o seu).

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