quarta-feira, 10 de setembro de 2014

SOBRE OS LAÇOS HUMANOS, REDES SOCIAIS, LIBERDADE E SEGURANÇA

Um viciado do Facebook me segredou, não segredou, de fato, mas gabou-se para mim de que havia feito 500 amigos em um dia.
Minha resposta foi que tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos.
Eu não consegui isso.
Então, provavelmente, quando ele diz “amigo” e eu digo “amigo”, não queremos dizer a mesma coisa.
São coisas diferentes.
Quando eu era jovem, eu nunca tive o conceito de “redes”.
Eu tinha o conceito de laços humanos, de comunidades, esse tipo de coisa, mas não redes.
Qual é a diferença entre comunidade e rede?
A comunidade precede você.
Você nasce numa comunidade.
Por outro lado, temos a rede.
O que é uma rede?
Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes.
Uma é conectar e a outra é desconectar.
E eu acho que a atratividade do novo tipo de amizade, o tipo de amizade do Facebook, como eu a chamo, está exatamente aí.
Que é tão fácil de desconectar.
É fácil conectar, fazer amigos.
Mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar.
Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho.
Então, romper relações é sempre um evento muito traumático.
Você tem que encontrar desculpas, você tem que explicar, você tem que mentir com frequência e, mesmo assim, você não se sente seguro porque seu parceiro diz que você não tem direitos, que você é um porco etc.
É difícil, mas na internet é tão fácil, você só pressiona delete e pronto.
Em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500 e isso mina os laços humanos.
Os laços humanos são uma mistura de benção e maldição.
Benção porque é realmente muito prazeroso, muito satisfatório, ter outro parceiro em quem confiar e fazer algo por ele ou ela.
É um tipo de experiência indisponível para a amizade no Facebook; então, é uma benção.
E eu acho que muitos jovens não têm nem mesmo consciência do que eles realmente perderam, porque eles nunca vivenciaram esse tipo de situação.
Por outro lado, há a maldição, pois quando você entra no laço, você espera ficar lá para sempre.
Você jura, você faz um juramento: até que a morte nos separe, para sempre.
O que isso significa?
Significa que você empenha o seu futuro.
Talvez amanhã, ou no mês que vem, haja novas oportunidades.
Agora, você não consegue prevê-las e você não será capaz de pegar essas oportunidades, porque você ficará preso. Preso aos seus antigos compromissos, às suas antigas obrigações.
Então, é uma situação muito ambivalente e, consequentemente, um fenômeno curioso dessa pessoa solitária numa multidão de solitários.
Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.
De que há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida satisfatória, recompensadora e relativamente feliz.
Um é segurança e o outro é liberdade.
Você não consegue ser feliz, você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles, certo?
Segurança sem liberdade é escravidão.
Liberdade sem segurança é um completo caos, incapacidade de fazer nada, planejar nada, nem mesmo sonhar com isso.
Então, você precisa dos dois.
Entretanto, o problema, é que ninguém ainda, na história e no planeta, encontrou a fórmula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade.
Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade.
Não há outra maneira.
Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da sua segurança.
Então, você ganha algo e você perde algo.
ZYGMUNT BAUMAN – Sociólogo Polonês.
(Texto transcrito de um vídeo)

Um comentário:

  1. Bom dia Lucélia.
    Passando para agradecer a travessia e o cometário.
    Concordo com o autor do texto.
    Hoje em dia as coisas estão tão banalizadas, que o significado da palavra amigo se resume a um clique.
    Parabéns pelo blogue.
    Um abraço.

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